Quatro perguntas para a escritora Letícia Palmeira

Letícia Palmeira nasceu em São Paulo, mas se considera paraibana desde suas raízes. Graduada em Letras pela Universidade Federal da Paraíba, faz de seu ofício de autora uma forma de estar sempre ao lado da literatura. Publicou contos e crônicas em Artesã de Ilusórios (EDUFPB, 2009), Sinfônica Adulterada (Multifoco, 2011) e Diário Bordô e Outras Pequenas Vastidões (Multifoco, 2013). Seu primeiro romance, “Sol e Névoa”, veio a público em 2015. Em 2016 publica “A Obscena Necessidade do Verbo”, sua primeira novela. E, no mesmo ano, ao lado da autora Lizziane Azevedo, organizou e publicou “Ventre Urbano”, primeira antologia de contos escritos por mulheres paraibanas. Os três últimos livros mencionados foram publicados pela Editora Penalux, que tem Letícia Palmeira como uma das autoras de seu grande catálogo. Fizemos quatro perguntas à escritora. Confira abaixo:

 

1 – Seu romance me lembrou os escritores Mineiros, pela simplicidade da escrita, pelo despudor de falar sem medo de afetos, e ter o leitor como companheiro de viagem, tal a cumplicidade que se estabelece entre a história e a leitura? Como foi o processo de se chegar a este grau de intimidade?

Sol e Névoa foi minha primeira tentativa de contar uma história sem intervir na vivência dos personagens com opiniões minhas. Deixei correr a palavra. Fui escrevendo livre, deixando a história acontecer. Os personagens me guiaram durante toda a narrativa. Me concentrei na vida de cada um deles para que tudo viesse de forma natural. Deixei que eles vivessem. Acredito que isto tenha feito com que a intimidade surgisse. Eu simplesmente contei a história como ela já existia quando a imaginei de princípio.

2 – Queria que você falasse de uma característica que vi em seu livro: a empatia. Há na sua forma de escrever tanto a ação como os personagens um forte desenho empático com quem recebe a leitura da tua narrativa? Que você acha? E um pouco calcado na ideia, você acha que a literatura de um modo geral, perdeu esta empatia com leitor, os textos estão cada vez mais maquinativos e cerebrais?

Da empatia, digo que elaborei cada personagem baseada em vivências minhas. Não que a história tenha ocorrido. Eu busquei em pessoas que conheço as características dos personagens. Tentei dar a eles o que vejo em gente de verdade. Amor, afeto, medo, coragem, confusão, problemas familiares, lembranças, conflitos. Tudo simples. Tudo real. E, como disse antes, deixei a narrativa correr sem malabarismos de linguagem. Fui direto ao ponto: contei Sol e Névoa. Alguns textos, por trabalharem tanto a linguagem de forma a trazer o belo estético, em figuras de linguagem ou rebuscamento em palavras, se distanciam do leitor. Não que o leitor seja incapaz de entender tais textos. É apenas questão de tempo de leitura. Sol e Névoa é uma leitura fluida e simples. Alguns leitores buscam isto. Sentar e ler, como quem assiste a um filme. Ler e ser levado pela narrativa.

3 –  Você coloca muitas referências dos anos 80 no livro que cria, um forte envolvimento com quem foi adolescente na época. Queria saber o que perdemos? De certa doce evocação do que se produzia na época, e queria saber de você se as referências culturais de quem escreve pode moldar um pouco o estilo da escrita?

Quando escrevo ouço música. Durante o processo de criação, escolho canções para ouvir. E como vivi minha adolescência entre os anos 80 e 90, larguei minhas referências musicais em Sol e Névoa. Deste período, perdemos a inocência. Embora seja classificada como década perdida, muito foi feito em arte. E os jovens da década viviam à espera de algo. Nós queríamos o futuro. Acreditávamos nele. Hoje não temos isto. Vejo adolescentes sem rumo, pois a tecnologia traz para eles todas as respostas. Quem viveu sua adolescência nos anos 80 conhece a sensação se ter esperança. De se acreditar. E de se revoltar também. Os jovens de hoje não sabem o que é esperar dias e noites para que uma canção toque no rádio para que você possa gravar em fita cassete. É uma das melhores sensações que já vivi. Esperar é algo divino.

4 – Como é o ato de se colocar no livro? De exercitar um outro eu, mas que fale de você de forma que exista a devida distância entre o narrado e o autor?

Escrever é como criar o mundo. O autor sente que é Deus por alguns instantes. Ou dias. O mesmo deve sentir outras pessoas que trabalham com arte. Eu participo das histórias que escrevo. Observo as cenas, vivencio sentimentos de cada personagem. É como viver mil vidas em um único processo de criação. Se todos soubessem o quanto é prazeroso, todos escreveriam livros. Eu recomendo. Quer livrar-se de sua vida e seus conflitos por alguns momentos? Escreva livros. Escreva histórias. Conte outras vidas.

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Fernando Andrade
Escritor e poeta, e jornalista, tem dois livros de poemas, Lacan por Câmeras Cinematográficas, e Poemometria lançados pela editora Oito e meio. Participa do coletivo de Arte, Caneta lente e pincel, com contos e poemas. também participa do Trema Literatura, coletivo de textos de ficção. tem entre seus escritores mais amados, Thomas Pynchon, Ìtalo Calvino, e no cinema ama demais Krzysztof Kieslowski.