Sim. Há linguagem na natureza. Não há vemos porque está vestida com signos que para nós urbanos não são identificáveis. Se já adentrou o reino do campo, ali as trocas entre os elementos água e fogo são claros e exatos como uma troca de corpo ou de sexo. Sim a questão dos gêneros é uma questão que permeia o natural há muito tempo, tão natural quanto ficar nu. As trocas na natureza não passam pelo discurso humano, com estudos de causa e efeito para uma posterior classificação. A luta entre opostos se dá pelo veio da fome, da vontade de domação, o termo dominação (é nocivo) no cerne do outro.

Por isso me deliciei ao ler os poemas contidos no livro “Passos ao redor do teu canto” da poeta e professora de literatura Maria Carolina de Bonis, lançado pela Editora Patuá. Há ali uma fuga dos poemas categóricos ou alegoristas, tal com um passista numa escola de samba sobre um carro alegórico. Não estamos no campo da antropologia cultural, as raízes aqui são outras. Não quero com isso desdenhar de processos da palavra aculturada (como o carnaval), não. Só quero exaltar o rito de uma foz faz nascer um veio espontaneamente. O poema quando ao natural, exala um forte perfume de bosque.

Onde tudo está, misturado, metáforas, sai dos buracos mais ferruginosos a cor rubra onde os insetos circulam entre a fome e o repouso. As equivalências têm gosto de ambivalências. Um equino não serve de montaria, mas sim como troppos de fadas. Toda a construção melódica  da poeta está permeada pelo falta de fronteiras entre o real e a fantasia, entre o mito e a verossimilhança.

Acho eu que beleza, este elemento estético, perde força quando ligado às classificações culturais. No texto de Maria Carolina de Bonis transfigura-se a linguagem normativa em poesia pura, em colmeia de espaços metrificados onde a socialização se dá por relações de cooperação como um formigueiro. Semântica torna-se assim um espaço de afetuoso abraço.