Mais do Cinema Ritrovato 2019

Pra começar o quarto dia de Festival, decidi continuar na mostra dedicada aos filmes estrelados por Jean Gabin e tive o prazer de assistir um filme de 1958 dirigido por Jean Delannoy: “Maigret tend un piège” (na imagem em destaque). 

Adaptado de um romance de Georges Simenon, o filme traz uma temática bastante conhecida do gênero policial: o embate entre a inteligência de um serial killer e de um detetive do departamento da polícia. Gabin interpreta o veterano detetive, cheio de técnicas pouco tradicionais para desvendar o caso e atingir diretamente o ponto nevrálgico de seu antagonista. Os diálogos e as interpretações são extremamente bem construídos, dando a impressão de que cineastas como David Fincher, um dos grandes mestres contemporâneos do gênero, devem ter bebido desta fonte. Algumas pitadas de Hitchcock também podem ser encontradas no interesse pelo caráter psíquico do serial killer.

Depois deste, numa das sessões dedicadas a Georges Franju, assisti a um de seus mais conhecidos filmes, disponíveis no YouTube: “Le Sang des Bêtes”. O curta de 22 minutos, lançado em 1949, mostra o decorrer de um dia em um dos mais famosos matadouros de Paris. Sua narração tranquila e estoica e seu método de filmagem pautado na mera observação dos atos e acontecimentos gera um forte efeito de desconforto e inquietude perante as imagens. Minha sensação depois de assistir foi de que estou um pouco mais perto de me tornar vegetariana.

Eduardo de Filippo foi a grande descoberta italiana pra mim nesta edição do festival, que exibiu dois de seus longas e três episódios que faziam parte de um conjunto maior. Sem entrar em detalhes de cada trama, gostaria apenas de ressaltar o quão gostei deste recém descoberto diretor. Contemporâneo de ícones do cinema italiano pós guerra, tais como Vittorio de Sica e Roberto Rossellini, De Filippo não deixa nada a desejar em meio a estes nomes. Suas histórias misturam críticas contundentes ao estado das coisas pós guerra e aspectos desgostosos do mundo dos homens com uma leveza, um senso de humor e uma beleza admiráveis. Numa das cenas mais lindas que vi ao longo desta semana, dois personagens, interpretados pelo próprio Eduardo de Filippo e por Totó, discutem sobre a contradição e a luta permanente pela felicidade (veja aqui).

A musa homenageada desta edição do Ritrovato foi Musidora. Jeanne Roques, como se chamava, foi atriz, diretora, escritora, produtora e realizadora francesa. Uma dessas mulheres que conseguiram ultrapassar as barreiras limitantes do gênero para atingir um certo nível de independência e autonomia artística. Nascida em 1889, sua carreira cinematográfico teve seu auge entre 1915 e 1926 e englobou papéis marcantes como Irma Vap e adaptações de histórias de Colette. Um link interessante pra quem estiver afim de saber mais sobre a versátil artista é este aqui: https://wfpp.cdrs.columbia.edu/pioneer/ccp-musidora/ 

Finalmente, à noite na praça, assisti pela primeira vez a “Roma”, de Fellini. Um filme grandioso que merece a tela grande para ser bem apreciado em todos os seus detalhes e exageros. Admito que sou muito mais fã de outros filmes de sua carreira artística, sendo alguns de meus favoritos “Amarcord”, “Noites de Cabíria”, “Os Boas-Vidas”, “La Dolce Vita” e “Ensaio de Orquestra”, mas ainda sim, mesmo com sua narrativa errática, um pouco perdida entre a tentativa de filmar a “Roma” contemporânea e a de suas memórias fantasiosas da juventude, cheia de rococós estilísticos, há, como sempre, vários momentos em que a poesia sobrepõe o estilo e podemos flutuar um pouco em meio aquelas cores e corpos espalhafatosos.

O Cinema Ritrovato é o festival de cinema que acontece na cidade italiana de Bolonha, focado em contemplar tesouros desconhecidos e também revisitar filmes favoritos da comunidade cinéfilos. Leia mais aqui.

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