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O charme feminino de “Entre Rosas”

Um "woman's film" moderno

O que faz de um filme um “filme de mulher”, ou, no diminutivo pejorativo, um “filme de mulherzinha”? Antes em maior número, os “woman’s pictures” já foram produções de prestígio, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial, com seus próprios diretores característicos, e hoje, apesar de ainda populares – chegando sempre ao TOP 10 de mais assistidos na Netflix, por razões que extrapolam o objetivo deste artigo -, algo depreciados. Filmes focados no gênero feminino, tanto como protagonistas quanto nas espectadoras, continuam sendo feitos, em diversos países, como na França, que nos entrega uma fina flor com Entre Rosas.

Ève Vernet (Catherine Frot) é uma florista com uma grande plantação de rosas, herdada do pai, onde faz minuciosas e criativas hibridizações para criar rosas novas e exclusivas. Mas as coisas não vão bem para ela. Por mais um ano, suas rosas são derrotadas na competição mais importante do ramo pelas rosas de Constantin Lamarzelle (Vincent Dedienne) que, devido às dívidas que ele sabe que Ève tem, faz uma proposta para comprar a plantação de Ève.

A sócia de Ève, Véra (Olivia Côte), conhecendo os problemas pelos quais estão passando, resolve contratar mais mão-de-obra para a plantação. Mão-de-obra inexperiente, vale ressaltar, porque a especializada custa muito caro para eles. Entram em cena os ex-detentos Nadège (Marie Petiot), Samir (Fatsah Bouyahmed) e Fred (Melan Omerta), que aceitam o trabalho como forma de ressocialização. Fred, o mais rebelde deles, tem um dom adormecido: seu nariz é capaz de detectar com perfeição as fragrâncias das rosas.

Com as “habilidades” dos três novos ajudantes, Ève surrupia da estufa ultrassecreta de Lamarzelle uma rosa rara chamada “The Lion”, e a hibridiza com outra rosa que já tinha, com o objetivo de criar uma flor de aparência e fragrância superiores para apresentar na próxima competição. Mas, para surpresa de todos, o cultivo de rosas tem muito de ciência exata, e se mostra mais complexo e até mais imprevisível do que o senso comum imagina.

Muitas vezes confundidos com o melodrama, os “woman’s pictures” ou “woman’s films” carecem da raiz teatral moralizante do melodrama, bem como da presença bem demarcada de um antagonista. São filmes protagonizados por mulheres sobre condições que afetam sobremaneira a nós – pelo menos dentro da mentalidade do cinema de Hollywood de meados do século passado – como romances e família. Segundo a professora e pesquisadora Jeanine Basinger, os três objetivos dos “woman’s films” são: colocar a mulher no centro do universo narrativo, reafirmar ao final que o verdadeiro trabalho de uma mulher é ser mulher e proporcionar temporariamente algum tipo de escapismo. Também de acordo com Basinger, as principais estrelas de destaque no gênero em Hollywood foram Bette Davis, Joan Crawford e Barbara Stanwyck.

Um “woman’s film” que curiosamente trava um bom diálogo com Entre Rosas é Rosa de Esperança (Mrs Miniver é o título original), de 1942. Este ganhador de seis Oscars, incluindo Melhor Filme, Diretor e Atriz, foi feito na medida certa para agradar e inspirar as mulheres que ficaram em casa quando seus maridos e mesmo seus filhos foram lutar na guerra. Kay Miniver, interpretada por Greer Garson, inspira um vizinho que cultiva rosas, de modo que ele batiza com o nome dela uma flor magnífica, ganhadora do prêmio principal na competição local de rosas.

O diretor Pierre Pinaud reforça, talvez sem querer, o status de “woman’s film” de Entre Rosas ao declarar: “É sobre uma mulher teimosa lutando sozinha contra grandes corporações e leis do mercado, rejeitando técnicas modernas que diminuem a qualidade das rosas produzidas.” Se na era de ouro dos “woman’s films” os temas mais comuns diziam respeito à dualidade lar X mundo, fica claro pela declaração de Pinaud que, para se manterem relevantes e atraindo espectadoras, os “woman’s films” tiveram de se atualizar. Sorte a nossa, mulheres modernas em busca de filmes que conversem conosco e com nossas novas ambições.

Entre Rosas

Entre Rosas
6 10 0 1
Nota: Bom – 6 de 10 estrelas
Nota: Bom – 6 de 10 estrelas
6/10
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