Os fãs de Street Fighter tinham a certeza de que o game era algo infilmável. A primeira tentativa de transformar o sucesso dos fliperamas e consoles – lançado em 1991 – em produção cinematográfica seguiu a regra das adaptações de sua época. Eram os anos 1990, e os cineastas eram estimulados a conferir suas visões particulares quando transpunham para a telona quaisquer criações dos quadrinhos ou dos games. A Warner determinou esse caminho para o seu Batman, dirigido por Tim Burton, e o resultado foi uma bilheteria massiva, acompanhada por um número impressionante de lucros com merchandising. A partir dali, outros estúdios passaram a adotar essa lógica, e a primeira adaptação de games para o cinema, Super Mario Bros. (1993), foi um tiro na água.
Como Street Fighter: A Última Batalha teve um desempenho pífio nas bilheterias, assim como o constrangedor Street Fighter: A Lenda de Chun-Li , e outras tentativas de transformar adaptações de videogame em um filão rentável falharam (Resident Evil foi uma exceção de bom faturamento), a franquia da Capcom ficou na geladeira durante anos. Dadas as vultosas bilheterias de filmes como Super Mario Bros.: O Filme e Um Filme Minecraft, o momento atual parecia propício para uma nova tentativa de emplacar o torneio mundial de luta no cinema.

Ambientada em 1993, no auge da era dos arcades, a trama acompanha os lendários praticantes de artes marciais Ryu (Andrew Koji, correto) e Ken Masters (Noah Centineo, no tom certo) no momento em que são tirados da inatividade e empurrados de volta às arenas. Recrutados pela misteriosa e obstinada Chun-Li (Callina Liang, ótima), os antigos parceiros aceitam o desafio de ingressar no World Warrior Tournament, um campeonato visceral marcado por confrontos brutais e sem margem para erros.
No entanto, o que começa como uma disputa esportiva para coroar o lutador definitivo rapidamente revela contornos muito mais sombrios. Por trás dos holofotes e da violência do torneio, esconde-se uma conspiração mortal de proporções globais. Forçados a encarar os traumas de seu próprio passado enquanto lutam pela sobrevivência, Ryu e Ken se veem presos em um jogo perigoso onde cada combate pode ser o último.

O diretor nipo-estadunidense Kitao Sakurai (da série Treta) foi o encarregado pela Paramount – detentora do sucesso cinematográfico da franquia Sonic no cinema – para comandar o projeto, e o cineasta demonstra um bom nível de entendimento da dinâmica do universo Street Fighter. A primeira mudança em relação ao filme de 1994 foi centrar a trama nos personagens principais do jogo, Ken e Ryu, que eram apenas o alívio cômico daquela produção, enquanto o então astro das artes marciais Jean-Claude Van Damme assumia o protagonismo como Guile. Ali, acreditava-se que a narrativa devia focar no militar norte-americano e aproveitar o stardom do ator belga.
Além disso, o diretor fez questão de que os golpes das lutas seguissem os movimentos originais do game, algo que o longa dos anos 90 praticamente ignorou. Com efeitos visuais muito superiores, temos o Hadouken e vários outros ataques especiais que as limitações noventistas não permitiam recriar. Situar a trama na época em que o jogo estava no auge da popularidade foi uma esperta manobra para explorar o absurdo conceitual daquele universo e para arrancar um largo sorriso dos fãs antigos, seja pelas músicas (algumas lançadas após o ano de 1993, mostrando que não houve uma preocupação rígida com o cronograma histórico) ou pela sexualização das personagens femininas Chun-Li e Cammy (vivida pela atriz tailandesa-australiana Mel Jarnson).

O calcanhar de Aquiles deste Street Fighter é ter se preocupado demais com a fidelidade visual e menos com um roteiro que costure adequadamente as lutas que vão se desenrolando na tela. O argumento de Dalan Musson (Capitão América: Admirável Mundo Novo) e Gary Dauberman (It: A Coisa) segue a premissa do jogo, mas o script derrapa. Talvez por ter sido escrito por um roteirista de games, T.J. Fixman (da franquia Ratchet & Clank, com apenas uma experiência prévia no cinema, Bagagem de Risco), ao lado do próprio diretor – que tampouco conta com um vasto currículo em longas -, faltou desenvolvimento para os personagens centrais e um gerenciamento que proporcionasse uma relevância mínima para os coadjuvantes, já que seria impossível dar protagonismo a um número tão inflado de figuras.
Seria interessante se tivéssemos um pouco mais de Balrog, interpretado pelo rapper 50 Cent (praticamente uma ponta), assim como Zangief e Dhalsim, relegados a relances em cena. Guile, interpretado por um Cody Rhodes proposital e deliciosamente canastrão, e que desfrutara do status de estrela principal na adaptação anterior, merecia mais tempo de tela. Agora, o personagem de fato encarna a galhofa que seu conceito pede.
Também decepciona o fato de Cammy ser reduzida a uma espécie de zumbi a serviço de Bison. O vilão, diga-se de passagem, é defendido com muita dignidade por David Dastmalchian (Entrevista Com o Demônio). Já o nosso Blanka, lutador brasileiro misto de Curupira com Incrível Hulk, aqui interpretado pelo arroz de festa Jason Momoa, é bem menos vexaminoso, mas ainda assim não foge do constrangedor, além de não ter muita função para a trama.

Street Fighter fecha com saldo positivo se colocarmos na balança os erros e acertos. No entanto, ainda não foi desta vez que os fãs do jogo ganharam uma grande obra-prima nas telas. Talvez ocorra o mesmo que vimos com Mortal Kombat, cuja continuação se saiu muito melhor. Quem sabe, da próxima vez, personagens que foram apenas pincelados neste longa ganhem maior projeção? Por ora, esta adaptação, embora bastante superior à sua antecessora, não foi um “Perfect”, mas sim uma vitória com a barra de energia quase no final.




















