O melhor esta por vir
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O Melhor Está por Vir e o amor que transborda no fazer cinematográfico

O cinema é a arte que mais ama se autorreferenciar. Isso pode acontecer em filmes sobre estrelas de cinema, sejam elas verídicas – como Annette Kellermann em “A Rainha do Mar” (1952) – ou fictícias – como Norma Desmond em “Crepúsculo dos Deuses” (1951). Outra forma metalinguística é o filme sobre fazer filmes. Deste filão, cujo mais bem-sucedido exemplar talvez seja o francês “A Noite Americana” (1973), surge uma co-produção Itália-França, com Nanni Moretti acumulando as funções de ator, diretor, produtor e roteirista: “O Melhor Está por Vir”.

Giovanni (Nanni Moretti) é um cineasta às voltas com seu mais novo filme, que conta a história de Ennio (Silvio Orlando), líder local do Partido Comunista Italiano numa cidadezinha aonde chega um circo húngaro em 1956, ao mesmo tempo em que estoura uma revolução na Hungria. O contexto faz com que a camarada Vera (Barbora Bobulova) inicie uma cruzada para que o partido condene os atos da União Soviética, num gesto de apoio aos húngaros.

Além das questões do trabalho, Giovanni está passando por dilemas em sua vida pessoal. A esposa Paola (Margherita Buy) trabalha com ele, mas pela primeira vez está produzindo concomitantemente um filme de outro cineasta, que não podia ser mais diferente de Giovanni. A filha Emma (Valentina Romani) está namorando um homem bem mais velho e também faz parte do filme do pai, como compositora.

Os muitos desafios do fazer cinematográfico são mencionados, e alguns inclusive explorados um pouco mais a fundo. Entre estes desafios está a atriz que quer improvisar em cima do roteiro, o aderecista que esquece objetos modernos em cenas que deveriam se passar nos anos 1950, o jovem diretor de filmes sanguinolentos que entra em confronto com o diretor veterano, os elefantes que não podem ser usados na filmagem e são trocados por um urso que anda de moto ou poodles búlgaros. Estes problemas são mostrados de maneira cômica, adicionando uma camada de leveza à película.

Um dos produtores do filme dentro do filme, o espaventado Pierre (Mathieu Amalric), consegue uma reunião entre Giovanni, Paola e executivos da Netflix, que estariam interessados em distribuir o filme pela plataforma de streaming. Os executivos ficam repetindo que as produções são vistas em 190 países, como se este argumento por si só já fosse suficiente para Giovanni aceitar a proposta. A outra opção para terminar de financiar o filme é apresentá-lo para produtores coreanos, que veem mais poesia e significados profundos no filme do que seu próprio criador.

Giovanni diz que faz um filme a cada cinco anos, o que não é o ideal: ele quer acelerar este processo – afinal, ele já tem outro projeto em mente, um filme sobre um casal com muitas músicas conhecidas. Mas ele não consegue, desta vez, sequer manter o ritual que faz antes de cada começo de filmagem: assistir com sua esposa e filha ao filme “Lola” (1960) de Jacques Demy, comer creme de gengibre e tomar sorvete.

É impossível não pensar em Giovanni como alter-ego de Nanni Moretti, que contudo demora menos de cinco anos para fazer um filme – seu mais recente havia saído em 2021. A crítica do personagem sobre filmes violentos, em que “só há lugar para o mal” – a que Paola responde que “todo mundo produz filmes assim e todos assistem” – pode então ser interpretada como palavras do próprio Moretti. Ora, esta discussão está na ordem do dia desde que Martin Scorsese – que é mencionado em “O Melhor Está por Vir” – criticou as franquias de super-heróis e foi apontado como um vilão do mundo do entretenimento.

O roteiro é assinado por Moretti junto a três mulheres: Francesca Marciano, Federica Pontremoli e Valia Santella. Sobre a autorreferência ao fazer cinematográfico, junto com sua escolha de ter e interpretar um alter-ego, Moretti afirma: “Embora o mundo ao seu redor esteja se tornando cada vez mais difícil de decifrar e aceitar, [o protagonista] Giovanni não quer perder para uma realidade decepcionante. E, acima de tudo, ele não quer desistir do sonho de poder mudá-lo. Se a vida e a história não permitem, o cinema, pela sua força e energia contagiosas, transforma a realidade e torna o sonho possível”.

Com o subtexto político do filme dentro do filme, “O Melhor Está por Vir” deixa criar uma utopia que é mais do que o sonho de um antigo militante do Partido Comunista Italiano, que é o caso de Moretti. É um filme que nos relembra do poder do cinema, para quem faz e para quem vê. Ter esta estreia no Brasil logo após o Ano Novo – data que nos convida a não apenas fazer diferente, mas fazer a diferença – pode ser visto como um bom agouro: o melhor está por vir nas telas em 2024.

O Melhor Está por Vir

O Melhor Está por Vir
9 10 0 1
9/10: Fantástico
9/10: Fantástico
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