Pssica: minissérie descortina o retrato de um Brasil ultrajante

Foi muito alardeado o fato de que a produção brasileira “Pssica” ficou entre as mais vistas da Netflix imediatamente após sua estreia, desbancando a mais famosa produção hollywoodiana “Wandinha”. E isso é justificável. Tensa, dinâmica, prendendo o espectador desde o começo, a minissérie reflete o melhor do nosso audiovisual contemporâneo. A minissérie começa frenética. A…


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Foi muito alardeado o fato de que a produção brasileira “Pssica” ficou entre as mais vistas da Netflix imediatamente após sua estreia, desbancando a mais famosa produção hollywoodiana “Wandinha”. E isso é justificável. Tensa, dinâmica, prendendo o espectador desde o começo, a minissérie reflete o melhor do nosso audiovisual contemporâneo.

A minissérie começa frenética. A protagonista Janalice (Domithila Cattete), uma adolescente paraense, tem um vídeo íntimo de sexo oral compartilhado na internet, causando problemas para sua reputação e desgosto para seus pais. Concomitantemente, os ratos d’água, espécies de piratas de água doce, invadem um barco e roubam seus tripulantes. Um dos bandidos é conhecido como Preá (Lucas Galvino). Conhecemos também Mariangel (Marleyda Soto), vinda da Colômbia, casada com o machão José Mauro e mãe de Guilherme.

Os pais de Janalice, incentivados pelo discurso de uma pastora, a levam para morar com a tia Daiane em Belém, capital do Pará. Lá ela conhece a destrambelhada Dionete (Ademara) e o menino Miltinho, que há tempos vaga em busca da irmã. Lá também passa a ser violentada pelo namorado da tia, Ramiro.

De volta ao interior, a venda de Mariangel é invadida pelos ratos d’água, que matam José Mauro e Guilherme. Em Belém, fugindo do namorado drogado de Dionete, Janalice é sequestrada pelo grupo de Preá, e um homem logo avisa: “agora esse corpinho não é mais teu”.

Tudo o que foi narrado nos últimos três parágrafos acontece apenas no primeiro episódio. É um soco no estômago depois do outro, algo que nos faz ao mesmo tempo querer pausar a série para respirar e desejar maratonar tudo na esperança de um final feliz – se é que ele existe para pessoas que passaram por tamanho trauma.

Enquanto os pais de Janalice buscam pela filha, Mariangel busca vingança. Preá quer “salvar” a menina, mas está longe de ser um herói, é apenas mais um homem querendo dominar o corpo e o destino de uma menina. São todos personagens complexos, cheios de camadas ricas e bem exploradas.

Quando Janalice desaparece, o pai, Pedro, recorre ao policial aposentado e padrinho da menina Amadeu (Sandro Guerra), que garante que postagens em redes sociais são provas e evidências policiais, portanto não devem ser apagadas – talvez até incentivar os jovens a postarem todos os seus passos seja uma coisa positiva, segundo ele.

O pai de Preá, o verdadeiro chefe dos ratos d’água, havia trabalhado antes no garimpo de ouro, atividade explorada no Pará muitas vezes de forma ilegal, colocando em risco o meio-ambiente. Por outro lado, o caso dos ratos d’água é tão verdadeiro que existe no Pará uma Delegacia de Crimes Fluviais. O bando de Preá rouba eletrônicos que estão sendo transportados pelo rio, e nada mais natural que isso, haja vista a proximidade da Zona Franca de Manaus.

No terceiro episódio, ajudando Mariangel no seu plano de vingança contra o bandido Gigante, um homem faz algumas perguntas num bar, no qual o dono está tentando oferecer a própria filha para fazer um programa com ele – e diz que não “pegaria” a preferida de Gigante sem o consentimento dele. Embora quem fale isso esteja do lado “dos bonzinhos”, é de se revoltar com o fato de que, quando meninas deixam de ser donas de seus próprios corpos, o consentimento sobre o que fazer com eles fique, como foi na maior parte da História, nas mãos dos homens, que se respeitam entre si, mas demonstram nenhum respeito pelas meninas.

Pssica, enquanto minissérie brasileira, toca em diversos pontos importantes de nossa realidade. Fanatismo religioso, tráfico de meninas, prostituição na região amazônica e até festas com meninas traficadas sendo “consumidas” por políticos. Este é o verdadeiro Brasil paralelo, do qual temos nojo e vontade de fazer alguma coisa para mudar essas duras realidades, mas na maior parte do tempo nos descobrimos de mãos atadas.

Sem dúvidas a melhor personagem é Mariangel, corajosa e enriquecida com um passado de guerrilheira na Colômbia que nos é descortinado em breves flashbacks. Ela é interpretada por Marleyda Soto, também presente na série da Netflix “Cem Anos de Solidão”, como a matriarca Ursula Iguarán Buendía. Felizmente, Janalice também está longe de ser uma donzela indefesa e luta ativamente por sua liberdade.

O diretor de Pssica é Quico Meirelles, filho de Fernando Meirelles, produtor da minissérie, que é baseada no livro de Edyr Augusto (foto abaixo), cujos pequenos trechos são exibidos durante os episódios. Augusto é relativamente conhecido por suas histórias ambientadas na região amazônica, trazendo um pouco dessa realidade muitas vezes ultrajantes para quem mora em outro extremo deste Brasil continental.

Alguns paraenses reclamaram dos estereótipos e do uso equivocado da interjeição mais associada com o estado, “égua”. Além disso, a minissérie faz parecer que os locais onde a ação ocorre – Belém, Breves, Tucuruí, Marajó – são perto um do outro, quando na realidade o Pará é um estado extenso. Outro cenário, a Guiana Francesa, parece tão próxima quanto as outras localidades.

Pssica significa “maldição”. Essa parece ser a sina de milhões de meninas brasileiras, hiperssexualizadas desde a infância, vítimas de adultização, negligência, abusos e violência tanto de pessoas más quanto da polícia e do Estado, que deveriam protegê-las. Em tempos em que estamos tendo nossos olhos abertas para questões que ameaçam as infâncias, a minissérie cai como uma luva, porque falar sobre, e trazer a discussão para fora das telas, é o primeiro passo para a mudança.

NOTA 9 de 10

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