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Mary Carmen Matias utiliza a materiais opostos como metáfora

A exposição une a solidez ancestral do metal e da pedra à fluidez translúcida do vidro, transformando o desafio técnico das altas temperaturas em investigação poética sobre convivência e acolhimento.

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A artista plástica Mary Carmen Matias apresenta a partir do dia 9 de fevereiro no Instituto Cervantes (Av. Paulista, 2439),  a mostra individual Sopro de Luz, que reúne cerca de 35 esculturas produzidas recentemente. O projeto inaugura um novo capítulo de experimentação em sua trajetória: a inserção do vidro em simbiose com o metal e a pedra, resultando em uma coreografia mineral onde a rigidez se curva à transparência. Para a artista, esse diálogo entre materiais opostos reflete uma percepção humanista sobre o mundo atual: “A observação da natureza nos ajuda a entender que o mundo é mais rico por ser heterogêneo. O encontro do vidro com o metal me mostrou que o essencial não é um aprisionar o outro, mas oferecer o apoio, o abraço e o aceitar”. Segundo a curadora Denise Mattar, a seleção revela uma operação silenciosa de transfiguração: “Onde haveria dureza, ela propõe movimento; onde haveria silêncio, ela escuta a vibração íntima das formas”, define. Mais do que desafiar a natureza bruta da matéria, a escultora extrai dos elementos a capacidade de ceder e coexistir, consolidando uma nova proposta estética e sociológica.

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Foto: Jones Kiwara

Encontro de opostos: metal, pedra e vidro

Após anos dominando o metal e o mármore —intensificou sua pesquisa durante o isolamento da pandemia com a série O Caminho das Pedras—, Mary Carmen sentiu a necessidade de evoluir para o etéreo. “É um passo ousado: depois de dar leveza ao aço, ela busca agora inserir o sopro vital na matéria bruta”, observa Mattar. “Eu não tinha conhecimento do vidro; sabia como o metal se comportava, porém o vidro era um mistério. Precisei estudar desde a descoberta fortuita dos cristais pelos fenícios na antiguidade para entender como poderia juntar esse novo elemento ao meu trabalho”, revela a artista. A dificuldade reside na física com as diferenças de fusão entre os materiais. Unir ambos em uma única peça, sem que a oxidação destrua a cor ou que o choque térmico rompa o material, foi “um verdadeiro exercício de adaptação”.  A curadora ressalta que esse processo gera um “abraço térmico que se transforma em escultura”, onde o brilho vítreo inunda e transforma a densidade do aço. “O vidro tem uma personalidade fortíssima; você tem que aceitar o caminho que ele quer e aprender a ouvir a matéria”, afirma a escultora. Denise Mattar acrescenta que essa escuta se materializa visualmente: “O vidro retém o gesto líquido mesmo depois de solidificado, como se o tempo da fusão permanecesse inscrito em sua textura”.

Arte e simbiose

As obras de Sopro de Luz transcendem a estética para carregar um peso humanístico. Ao observar as peças prontas, a artista identificou nelas uma poderosa mensagem sobre a convivência: “Observei materiais opostos que convivem juntos apesar de suas diferenças. Isso me levou a pensar como é importante aceitar a diversidade. Vi o vidro e o metal se abraçando, um acolhendo o outro com suas diferenças. Como seres humanos, deveríamos conviver assim: um recebendo e aceitando o outro sem que ninguém perca sua essência”, explica. A artista substitui o conflito pelo entrosamento, sugerindo proteção e simbiose em vez de domínio de um material sobre o outro. Nas obras em que o metal envolve o bulbo de vidro, a curadora identifica uma dissolução entre interior e exterior: “A escultura se torna um organismo com veias, pele e sopro. O vidro torna-se víscera translúcida, e o metal, paradoxalmente, torna-se proteção”, analisa.As curvas orgânicas — marca registrada de Mary Carmen — servem como o elo que une a pedra, o aço e a fluidez do vidro, revelando um pacto de convivência. “A pedra não aprisiona o vidro, nem o vidro dissolve a pedra — ambos sustentam o equilíbrio entre peso e luminosidade”, diz Mattar. O percurso da exposição evidencia essa harmonia, respeitando a identidade de cada obra. “O que Mary Carmen nos oferece é escultura em estado de respiração, presença que acende o olhar e sussurra silêncio”, conclui a curadora.

Inspiração do cotidiano

O processo criativo da artista também revela momentos de absoluta intuição lúdica. Algumas das esculturas presentes na mostra tiveram suas formas iniciais inspiradas em objetos comuns, como as bexigas de festas de seus netos. “O artista capta na hora e transforma em obra de arte objetos que para os outros, podem não dizer nada”, comenta Mary Carmen. Essa capacidade de enxergar o extraordinário no ordinário resulta em obras que variam de 30cm a 1,5m de altura. Para Mattar, essa nova fase reafirma o desejo mais profundo da artista: “Fazer da escultura uma morada do sensível, onde luz e sombra se tocam sem se anular”, conclui.

Ficha Técnica

Artista: Mary Carmen Matias. Curadoria: Denise Mattar. Obras: 35 esculturas em vidro, metais (aço, alumínio, corten) e pedras naturais.Dimensões: Obras de 30cm a 1,5m de altura. Produção, Cenografia e Montagem: Guilherme Isnard. Fotografia: Sérgio Guerini. Vídeo: Storia – Artur Angeli. Design Gráfico: Ana Lucas. Assessoria de Imprensa: Arteplural – M. Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira.

Serviço
Exposição: Sopro de Luz. Abertura: 9 de fevereiro, 19 horas. Período: de 9 de fevereiro a 27 de fevereiro. Horário: de segunda a sexta-feira das 10h às 19h. Local: Instituto Cervantes – Av. Paulista, 2439 (Térreo), Bela Vista, São Paulo/SP. Próximo à estação Consolação do Metrô.

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