Capítulo do livro “As vontades do vento”, de Jozias Benedicto

Jozias Benedicto, maranhense radicado entre Brasil e Lisboa, construiu uma trajetória marcada por prêmios e pela interseção entre literatura e artes visuais. Formado em Tecnologia da Informação, atuou por quatro décadas antes de dedicar-se integralmente às artes após os 60 anos. Pós-graduado pela PUC-Rio, trabalhou como editor, curador e autor de textos críticos para exposições.…


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Jozias Benedicto, maranhense radicado entre Brasil e Lisboa, construiu uma trajetória marcada por prêmios e pela interseção entre literatura e artes visuais. Formado em Tecnologia da Informação, atuou por quatro décadas antes de dedicar-se integralmente às artes após os 60 anos. Pós-graduado pela PUC-Rio, trabalhou como editor, curador e autor de textos críticos para exposições. Estreou na literatura em 2013 e já publicou nove livros, sendo reconhecido por prêmios como o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais, o Prêmio Moacyr Scliar, o Prêmio da Fundação Cultural do Estado do Maranhão e o Prêmio de Literatura do Estado do Pará. Jozias lança “As vontades do vento”, obra que mergulha nas entranhas de uma família envolta em segredos do clero, prostituição e herança escravocrata. 

Capítulo 01

A mãe e os mistérios dolorosos

enquanto eu estiver sentindo dor é bom pois sei que estou viva

viva

aqui eu ainda um pouco viva e nem bem morta e já meu tio o santo monsenhor me aparece todo paramentado em roxo, ele vem me abraçar!, não eu, tio!, não quero ir, eu quero viver!, enquanto estou viva, nem que só um pouquinho viva, quero viver enquanto sentir dor, esta dor imensa me sai das entranhas, de meu ventre, me invade em ondas 

como se me perfurasse de dentro para fora, 

esta dor agora é mais eu do que eu mesma sou eu

agonia

mas a dor me deixa feliz pois ao doer me mostra que estou viva, ainda, viva!, os mortos não sentem dor, ave maria cheia de graça o senhor é convosco, e o suor e a pontada de dor e o gosto azedo do sangue na boca seca

e tudo muito rápido, nem bem peguei um vento de mau jeito um sereno com a cabeça descoberta e veio um espirro e outro e achei que era só isso uma bobagem um leve resfriado, logo vai passar e tomei um chá de alho bem quente porém outro espirro e outro e outro a tosse e então um calor e um cansaço eu devia ter resistido firme como sempre “ela é muito forte nunca adoeceu”, nada disso, eu é que nunca me entreguei a nenhuma enfermidade e sempre aguentei firme os achaques e mazelas eu e meus chás, 

mas desta vez foi uma febre e um abatimento uma debilidade, e “mamãe o que a senhora está sentindo?” e “já estou melhor “e bendita sois vós entre as mulheres e “mamãe a senhora precisa se alimentar” e foi tudo depressa a comida não descia e as tisanas eu vomitava e de nada me adiantavam e eu tive então que chamar o doutor clínico, ele fechou a cara e decretou: “melhor internar”

e foi rápido, nem bem cheguei naquela casa de onde não se sai vivo não tive tempo nem de ter medo já estava sem minhas roupas nem tive tempo de sentir vergonha das minhas partes expostas dentro daquela camisola vulgar azul-claro toda aberta não chega nem a ser uma camisola é um reles avental sem nenhum ornato nenhum atavio nenhuma renda, aos poucos percebo: é uma mortalha, para que é que eles vão enfeitar essa vestimenta se quem entrou nesse lugar é para morrer?, eles deixam para decorar de flores a igreja na missa de corpo presente e mais flores na de sétimo dia e na de mês 

e bendito é o fruto de vosso ventre e eu sem tempo nem de pensar nem de falar nada nem de rezar e já assim carregada em uma padiola dura por uns palhaços fantasiados de branco encardido e o cheiro de éter e de enjoo e já me tiraram os óculos e então eu entendi: era para que eu não pudesse nem enxergar a minha morte vindo

jesus!,

e santa maria mãe de deus e rogai por nós pecadores e nem bem cheguei e me vestiram com os panos azul-clarinho o avental gasto e sujo deve estar com cheiro dos outros mortos que por aqui sofreram e me enfiaram uns tubos frios e barulhentos e me examinaram toda e me viraram para cima e para baixo e me enfiaram agulhas e a cada hora um bufão diferente e “o quê a senhora está sentindo?” e “dói?” e eu logo aprendi que se dói é que ainda estou viva mas tenho que guardar esta bendita dor para mim 

pois logo logo aprendi a responder “não dói”, se digo que dói os algozes vem ligeiro me dar uma agulhada para fazer parar a dor e aí mesmo é o finado meu tio monsenhor vem me carregar, “para a luz!”, ele falando e abrindo para mim a porta no final do corredor escuro, “aceita!”, e eu sorrindo para ele mas respondendo com todo o respeito que pode uma mulher no meu estado nua dentro desta mortalha, “me deixa meu santo tio!”, ainda quero ainda preciso ainda tenho muita coisa para fazer aqui neste mundo e ainda estou sentindo dor muita dor ou seja: 

ainda estou viva!

e não quero morrer, quero ficar viva mesmo que toda cortada aos pedaços como minha mãe deitada na cama sem entender nada sem enxergar sem falar e os pés gangrenados e ela se alimentando só de hóstias e água benta mas viva!, viva!, quero me manter viva mesmo sem nenhum movimento nenhuma visão nenhuma esperança nada sem nada nada

e finalmente me deixam em paz e apesar da vista turva opaca sem meus óculos eu vejo que abrem uma cortina e entram os três, um depois do outro, meus filhos, varões que não me deram descendência, os três, cada um do jeito que é dele, cada um com o medo que é dele, cada um com a dor que é dele e eu com a minha dor, me dói tanto, mas não posso nem dizer que dói 

e tento fabricar um sorriso e um deles ajeita meu cabelo e passa a mão em minha testa como se limpando gotas de suor e de dor, o outro segura minha mão esquerda pois meu braço direito está amarrado e cheio de tubos e ataduras e agulhas como se fosse o sagrado coração de maria sangrando e perfurado por espadas e o terceiro segura meus pés frígidos e faz uma massagem e aperta meu dedão como quando ele era um bebê e sugava meus peitos buscando o meu leite, 

e tudo muito rápido e agora o escuro das lâmpadas o escuro e o silêncio 

nem bem eu pari estes três meninos, um depois do outro e eram umas criancinhas assustadas com medo de respirar com receio do mundo e eu ensinei eles a respirar, mostrei a vida e, parece, não se passou nem um dia, foram horas ou minutos talvez e hoje eles estão aqui e são homens tentam esquentar meus pés gélidos e limpar minha testa molhada de suor e apertar minha mão para me dar coragem e tentam cuidar de mim tentam lutar contra o escuro que me chama e me invade eu agora sou a criança apavorada que não consegue nem falar nem gemer nem respirar e o escuro e o silêncio e agora a dor a dor a dor

e agora e na hora de nossa morte e amém


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