Eterno vocalista do Led Zeppelin encanta São Paulo revisitando raizes musicais
Quando Robert Plant vem ao Brasil, a mobilização é inevitável. Mesmo fazendo shows que deixam os clássicos do Led Zeppelin em segundo plano, colocando os holofotes sobre seus novos projetos e releituras da música tradicional norte-americana, ele ainda é o vocalista de uma das maiores bandas de todos os tempos, um representante da era em que os gigantes caminhavam sobre a Terra. Quem conhece a história do Zep sabe que Plant não é apenas um dinossauro, mas um sobrevivente de uma trajetória regada a loucuras, excessos e episódios que parecem ficção. Não à toa, seu show que encerrou o C6 Fest 2026, no último domingo em São Paulo, foi o mais concorrido.
Plant entrou no palco principal do evento pontualmente às 20h30, acompanhado de sua banda Saving Grace — que também dá nome ao álbum de 2025 — diante de uma plateia reverente, com uma faixa etária mais elevada do que a do dia anterior, embora houvesse jovens querendo testemunhar o momento histórico. Ao contrário da última passagem pelo Brasil, quando abria as apresentações com uma música do Led Zeppelin — no caso, “No Quarter” — desta vez iniciou os trabalhos com “The Very Day I’m Gone”, uma canção folclórica tradicional popularizada pela cantora do Kentucky Addie Graham, sendo a versão mais conhecida a da banjoísta Nora Brown. A música seguinte também é um exemplar do cancioneiro tradicional da América profunda: “The Cuckoo”.
Junto com Plant, à frente da banda está a cantora Suzi Dian, muito aplaudida pelo público durante os belos duetos com o vocalista. Ela traz uma química quase tão boa quanto a que ele possui com Alison Krauss, com quem criou o trabalho mais belo da sua carreira pós-Zeppelin, o disco de 2007, Raising Sand (infelizmente ausente no repertório).
Mas, obviamente, o público queria ouvir Led Zeppelin. Mesmo que a maioria estivesse ciente de que aquele senhor de 77 anos busca se distanciar da nostalgia do tempo em que, com uma volumosa cabeleira loira e corpo esbelto, liderava uma estrondosa banda de rock — e mesmo que grande parte soubesse que nem sequer se tratava de um show de rock — todos queriam um pequeno vislumbre das glórias do passado. E o primeiro veio na forma de “Ramble On”, clássico do álbum Led Zeppelin II, que provocou uma catarse no público.
Plant ainda sustenta notas muito próximas dos velhos tempos. Cada maneirismo vocal era um regozijo para os presentes, mas ele deixava espaço para a convidada brilhar, como em “Orphan Girl”, quando ficou sentado ao fundo do palco apenas fazendo backing vocal.
Em “It’s a Beautiful Day Today”, uma fã, de alguma forma, conseguiu subir ao palco, mas foi logo contida por um funcionário. Sem resistência, fez referência ao ídolo, que pareceu se divertir e até fez menção para que ela se aproximasse; no entanto, foi retirada. Já em “As I Roved Out”, puxou um coro de “oo oo oo” e, como a plateia, sob hipnose, não entendeu que era para responder, brincou fingindo frustração; então, o público, aos risos, entoou o coro, que teve como resposta um agudo zeppeliano de arrepiar até os recém-iniciados na clássica banda.
Em meio às canções folk tradicionais e às do Led Zeppelin, estava uma joia da carreira solo: “Calling to You”, do álbum Fate of Nations (1993), e até um cover de Neil Young, “For the Turnstiles”. O mergulho na música popular nascida no interior dos Estados Unidos não é novidade, pois o blues e o folk são alicerces da sonoridade do Led Zeppelin. Mas, na maturidade, Plant resolveu abraçar essa musicalidade para se manter relevante na cena musical, ao mesmo tempo em que permanece fiel a si mesmo. É como se o que foi feito ao lado de Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham tivesse sido uma contribuição já concluída, e que não faz mais sentido hoje.
Bem-humorado, anunciou, com descontentamento, que o show da C6 Fest seria o último da temporada no Brasil (após passar por Porto Alegre e Rio de Janeiro). Disse ter passado uma ótima temporada e suspirou, mostrando desânimo de retornar à Inglaterra natal. No clima caloroso de despedida, deu de presente no bis “Rock N’ Roll”, do Led Zeppelin, que andava sumida do repertório desde a penúltima data na Argentina, em Córdoba, lavando a alma de quem ansiava por um pouco da veia roqueira, já que as faixas do Zeppelin escolhidas para o repertório são justamente as que se encaixam na proposta folk. Daí, a banda pôde mostrar também seu poderio eletrificado.
Foram quatro músicas do Led Zeppelin no total, uma a menos que na Argentina e duas a menos do que na última visita, em 2015 (da qual ele se recordava ao mencionar o Lollapalooza, quando se apresentou na mesma noite que Jack White). Mas o público hoje parece aceitar melhor a escolha artística, uma vez que o privilégio de se estar diante de uma lenda viva tem peso maior do que a nostalgia, daí, não faltou emoção em nenhum dos 90 minutos de apresentação(e de pensar que à frente do Zeppelin fez diversos shows com o dobro do tempo) e já se prepara para a próxima vez, que, segundo ele anunciou ao se despedir, será breve.
Setlist
- The Very Day I’m Gone (Nora Brown)
- The Cuckoo ([traditional])
- Higher Rock (Martha Scanlan)
- Ramble On (Led Zeppelin)
- Orphan Girl (Gillian Welch)
- Four Sticks (Led Zeppelin)
- Calling to You (Robert Plant)
- Let the Four Winds Blow (Robert Plant and the Strange Sensation cover)
- It’s a Beautiful Day Today (Moby Grape)
- As I Roved Out ([traditional] cover) (Robert Plant)
- Angel Dance (Los Lobos)
- For the Turnstiles (Neil Young)
- Friends (Led Zeppelin)
Bis:
- Everybody’s Song (Low)
- Rock and Roll (Led Zeppelin)








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