O Fim da Rua e o ensaio sobre a finitude

O Fim da Rua, produção assinada por J.J. Abrams e sua produtora Bad Robot, evidencia o inegável fascínio pela ideia de finitude que o ser humano possui — algo que não é exatamente uma novidade na cultura pop. No entanto, quando acabamos de vivenciar ameaças concretas, esse sentimento se intensifica. No cenário recente, a pandemia…


O Fim da Rua, produção assinada por J.J. Abrams e sua produtora Bad Robot, evidencia o inegável fascínio pela ideia de finitude que o ser humano possui — algo que não é exatamente uma novidade na cultura pop. No entanto, quando acabamos de vivenciar ameaças concretas, esse sentimento se intensifica.

No cenário recente, a pandemia da COVID-19 parou o mundo por um bom tempo e nos colocou em alerta constante, exigindo que levássemos nossas vidas na medida do possível enquanto tínhamos que lidar com a contagem de corpos diária nos noticiários televisivos.

A arte, obviamente, reflete essas dores. Se no pós-11 de setembro o cinema precisava lidar com a ameaça do “outro” (de forma semelhante ao que ocorreu na Guerra Fria), neste período pós-pandêmico — que agora se converge com eventos climáticos cada vez mais preocupantes —, a narrativa se volta para histórias em que o mundo conhecido e nossas rotinas são chacoalhados por uma mudança repentina e inevitável. A Última Casa, atual sucesso da Netflix, protagonizado por Wagner Moura, é outro exemplo claro dessa tendência.

Do Tranquilo Subúrbio Americano para a Era dos Dinossauros

Na trama de The End of Oak Street (no original), acompanhamos o casal Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor). Entre o desgaste da rotina familiar e o desafio de criar dois filhos adolescentes, o relacionamento dos dois atravessa uma profunda crise. No entanto, os problemas do cotidiano perdem completamente a relevância diante de um evento de proporções inexplicáveis.

Tudo muda drasticamente na pacata rua Oak do título, quando um misterioso evento cósmico, acompanhado por uma tempestade avassaladora, atinge a região. Em um piscar de olhos, não é apenas a família Platt que é deslocada, mas toda a vizinhança suburbana é abruptamente arrancada de 1980 e transportada para a era dos dinossauros.

Ao se verem isolados em uma paisagem hostil e completamente irreconhecível, os moradores da rua descobrem que o ambiente ao redor agora é dominado por predadores gigantescos. Sem os confortos da vida moderna e cercados por ameaças de milhões de anos atrás, Denise, Greg e os filhos serão forçados a colocar as diferenças de lado. A jornada de sobrevivência exige cooperação absoluta: para proteger a família e encontrar uma maneira de retornar ao seu tempo original, o casal precisará se reconectar na marra em meio ao caos.

Direção, Nostalgia e Influências Spielberguianas

O diretor David Robert Mitchell (do aclamado terror Corrente do Mal) conduz esta mistura de terror, ficção científica e aventura imprimindo uma atmosfera oitentista visceral. A estética é sobretudo spielberguiana, algo bastante caro à Bad Robot — estúdio também responsável por Super 8, em que Abrams não só homenageava Steven Spielberg, como o tinha como produtor executivo.

Porém, aqui a inspiração principal vem de Poltergeist, clássico que Spielberg escreveu e produziu sob a direção de Tobe Hooper. Ainda assim, há claros pontos convergentes com Contatos Imediatos de Terceiro Grau, E.T. – O Extraterrestre e, como não poderia deixar de ser, Jurassic Park.

Construção de Tensão e Atuações

O roteiro, também assinado por Mitchell, é hábil em criar tensão ao trabalhar a progressão da ameaça desde a mera sugestão até o caos completo, tornando o espectador cúmplice dos personagens devido à sua verossimilhança. O filme recorre à fórmula da família disfuncional sabendo exatamente como extrair eficácia dela.

Há quem veja um acerto no fato de o longa não se aprofundar em explicações científicas exaustivas. De fato, em um filme de fantasia alinhado à tradição do cinema de entretenimento dos anos 1980, isso não é o mais importante. Todavia, amarrar um pouco mais alguns esclarecimentos não prejudicaria a fluidez da trama. Além disso, pequenas inverossimilhanças salpicadas ao longo da narrativa — algumas bastante convenientes — podem incomodar os espectadores mais exigentes.

Por outro lado, o elenco encabeçado por Ewan McGregor e Anne Hathaway é um acerto absoluto. A direção de atores conduzida por Mitchell é fundamental para criar conexão com o público, impulsionada pelo carisma incontestável do escocês e da americana. Já os adolescentes que interpretam os filhos do casal, Maisy Stella e Christian Convery, coadunam-se com a verve dos bons elencos infanto-juvenis das produções da década de 80.

Veredito: O Melhor Filme de Dinossauros em Décadas?

Com um orçamento não tão inflado de US$ 85 milhões, O Fim da Rua entrega efeitos especiais impressionantes, que tornam as criaturas pré-históricas críveis e tangíveis na tela.

Não é exagero dizer que este é o melhor filme com dinossauros lançado desde Jurassic Park: O Mundo Perdido (1997). Mesmo sem atingir a perfeição, o longa passa longe de cometer os equívocos que a franquia da Universal acumulou em seus títulos mais recentes. É um entretenimento honesto e envolvente, perfeito para conquistar o cinéfilo que já tiver passado pelo hype de A Odisseia e Homem-Aranha, ou esteja justamente querendo fugir dele.

O Fim da Rua

O Fim da Rua
7 10 0 1
Nota: 7/10 – Ótimo
Nota: 7/10 – Ótimo
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