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“S’imbora, o Musical – A História de Wilson Simonal” aquém de sua conjuntura

Não fosse pelo drama pessoal (e nocivamente público) da qual passou e acabou por definir o seu futuro como indivíduo e artista, Wilson Simonal seria (só) reconhecido como o precursor da música pop brasileira – no tocante à identidade – e o nosso primeiro grande showman.

Com seus revezes, sua trajetória ganhou ares dramáticos, além de absurdamente dramatúrgicos. Como se sua vida fosse uma biografia criada para uma necessidade ficcional. Daí o interesse (tardio) crescente em sua vida e obra, principalmente após o ótimo e elucidativo documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Cláudio Manoel.

Um musical que acampasse o que foi e o que esteve por trás do mito, era inevitável, e dada sua representatividade musical, até que demorou tempo demais para aparecer. Eis que a prolífera dupla Nelson Motta e Patricia Andrade escrevem e Pedro Brício dirige S’imbora, o Musical – A História de Wilson Simonal.

Simbora Musical Historia Wilson Simonal

O que se pode dizer, de cara, é que o texto estava num compasso muito mais azeitado que a direção. E, basicamente, essa cisão compromete demais as possibilidades que um “universo Simonal” poderia oferecer. O roteiro já apresenta nosso protagonista através da retórica da acusação que ele carregaria pelo resto da vida. Sem pedestais lúdicos, Simonal é retratado como um artista que se confundia dentro de seu enorme talento e carisma, e que por isso mesmo, esteve envolvido de maneira mais ou menos culpada em suas próprias excentricidades. Entretanto Pedro não absorveu o detalhismo da habilidade do roteiro. Sua direção não assimila totalmente as necessidades de um musical, sendo oblíquo e anticlimático em momentos chaves de complementação musical da história.

Para completar, o cenário apela equivocadamente para funcionalidade “pura e simples”, resultando feio, antiquado e endurecido no todo do espetáculo (nem vou me estender sobre o telão de fundo, de baixa resolução, mas sendo usado como se fosse de alta). Mas o que é ainda pior é o figurino, tão capenga e cheio de falhas (cênicas) que me pergunto se os profissionais envolvidos frequentaram as reuniões de conceito do musical.

Por outro lado temos um elenco convincente, e Ícaro Silva, a cada novo trabalho demonstrando sua versatilidade artística e, aqui, uma propensão vocal admirável. Assim como toda a direção musical, competente e bem arranjada. Só que um musical sobre nosso grande ícone pop de outrora, merecia um verniz e uma direção de cena mais consciente dessa importância.

Numa das sacadas mais acertadas do roteiro, Simonal divide seu talento entre o antagonismo da bossa nova e da jovem guarda, mas Brício pouco delineia essa transição cênica. Assim como a interferência direta demais do narrador Carlos Imperial (Thelmo Fernandes), que quebra o encadeamento emocional de, pelo menos, duas cenas.

Simbora Musical Historia Wilson Simonal divulgacao

Evidente que a força de Simonal é maior que os vacilos de direção. E pude constatar isso num teatro João Caetano lotado e entusiasmado. Mas não dá para ignorar que o mercado de musicais brasileiro por mais promissor que esteja se tornando, ainda se equilibra na corda bamba de onde mais necessita de segurança: a contextualização artística do seu ser.

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