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Crítica: “Lugares Escuros” intriga, mas não chega aos pés de “Garota Exemplar”

Em Hollywood, uma das situações que já se tornou um verdadeiro clichê é a adaptação de livro que foi um grande sucesso de vendas para o cinema. Se o autor, ou autora, produzir best sellers para o público jovem e adulto em série, melhor ainda. Basta ver casos recentes, como JK Rowling, Nicholas Sparks ou, vá lá, E.L. James (de “Cinquenta Tons de Cinza”). Um exemplo mais recente foi o que aconteceu com Gillian Flynn, que viu seu “Garota Exemplar” estourar nas livrarias de várias partes do mundo e atraiu a atenção de David Fincher (“Seven”, “Clube da Luta”), que resolveu dirigir a versão do livro, resultando num dos suspenses mais festejados de 2014 e rendeu até uma indicação para o Oscar de Melhor Atriz para sua protagonista, Rosamund Pike. Assim, não demorou muito para que outra obra de Flynn fosse levada para telas e, um ano depois de “Garota Exemplar”, chega aos cinemas “Lugares Escuros” (“Dark Places”). O filme (que, curiosamente, foi produzido antes de “Garota Exemplar”, mas lançado depois), embora tenha alguns elementos interessantes, não alcança a mesma excelência da produção de Fincher, mas ainda assim não é totalmente decepcionante.

O filme acompanha a história de Libby Day (Charlize Theron), única sobrevivente de uma tragédia no passado, que custou a vida da mãe, Patty (Christina Hendricks) e as irmãs Michelle (Natalie Precht) e Debby (Madison McGuire). Ela acabou testemunhando contra o irmão Ben (Tye Sheridan na adolescência e Corey Stoll, já adulto), que teria assassinado a família devido a um ritual satânico. Praticamente falida, 25 anos depois do crime, Libby aceita o convite do Clube da Matança, liderado por Lyle (Nicholas Hoult), para procurar novamente evidências que possam vir a esclarecer os assassinatos. Aos poucos, ela começa a questionar se fez a coisa certa ao apontar Ben como culpado e tenta compreender o que fez com sua vida, ao mesmo tempo em que tenta encontrar a verdade sobre os fatos que a marcaram para sempre.

“Lugares Escuros” foi o segundo livro escrito por Gillian Flynn e é anterior a “Garota Exemplar”, mas já possui alguns pontos em comum com o trabalho que a consagrou, como evidenciar o lado sinistro das suas personagens e os motivos que as levam a tomar medidas inusitadas, que podem ter consequências desagradáveis. É uma pena, no entanto, que o diretor escolhido para a adaptação, Gilles Paquet-Brenner (de “A Chave de Sarah”), não seja tão eficiente quanto Fincher para criar um adequado clima de suspense. Embora a montagem, que vai ao passado e volta ao presente durante boa parte do filme, consiga deixar o espectador desconfiado da verdade do que acontece na tela da mesma forma que os personagens, o diretor não consegue dar um ritmo mais intrigante e pode até entediar o público, a ponto de nem se impressionar com as (poucas e óbvias) reviravoltas, tampouco se interessar pela solução do caso. O roteiro, também escrito pelo diretor, apesar de desenvolver bem os personagens principais, não faz o mesmo em relação aos coadjuvantes, como o pai abusivo de Libby, interpretado por Sean Bridges, ou mesmo Diondra, vivida pela gracinha Chlöe Grace Moretz, disposta a se livrar de vez da imagem de Hit-Girl dos filmes da série “Kick-Ass” e mostrar que não é mais uma garotinha. Só que suas motivações não ficam realmente claras no texto do cineasta e isso compromete um pouco a sua performance no filme.

No elenco, o principal destaque vai, obviamente, para Charlize Theron, que além de atuar, também é uma das produtoras do filme. Ela consegue passar bem a angústia e a tristeza de Libby, que acredita ter um lado sinistro em sua personalidade perturbada como se fosse uma maldição, tanto que evita ser tocada por outras pessoas e chega a usar um boné para que não possa olhar nos olhos dos outros, traços típicos de quem passou por um grande trauma. Já Nicholas Hoult, que também trabalhou com Theron recentemente como Nux de “Mad Max: Estrada da Fúria”, se limita a ser apenas uma espécie de fã de Libby e tenta ajudá-la a resolver o mistério de seu passado de forma correta, sem se sobressair. O mesmo acontece com Corey Stoll e Christina Hendricks, embora ela tenha mais chances de aparecer como a mãe da protagonista, angustiada com a falta de dinheiro e os problemas que enfrenta por causa dos filhos. O jovem Tye Sheridan, que será o novo Ciclope de “X-Men: Apocalypse”, tem um pouco mais de sorte como o rapaz apaixonado por Diondra, que acaba sendo levado a realizar coisas condenáveis.

Embora não tenha muito brilho, “Lugares Escuros” não chega a ser uma grande perda de tempo. O filme vale como curiosidade, mas não chega a ser memorável para os fãs de suspense. Ele pode até agradar os apreciadores de Gillian Flynn e Charlize Theron, desde que não sejam muito exigentes. De qualquer forma, pelo menos é um pouco mais profundo do que uma simples sessão da tarde.

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