Guerrilhas Artísticas na Danielian Rio

A Danielian Rio inaugurou a exposição GUERRILHAS ARTÍSTICAS, que revisita os últimos duzentos anos da produção artística brasileira. Depois de Modernidades Emancipadas (2022/23) e Abstrações Utópicas (2023/24), esta nova exposição se volta ao período das décadas de 1960, 1970 e o início dos anos 1980, marcadas pela repressão política, pela supressão de direitos e pela…


Cópia de 02753 Glauco Rodrigues Uma outra visão da terra a lenda do coati Purú 1977 Acrilica sobre tela cid e verso 60 x 72 cm uma outra toca coati purú etiqueta ralf camargo

A Danielian Rio inaugurou a exposição GUERRILHAS ARTÍSTICAS, que revisita os últimos duzentos anos da produção artística brasileira. Depois de Modernidades Emancipadas (2022/23) e Abstrações Utópicas (2023/24), esta nova exposição se volta ao período das décadas de 1960, 1970 e o início dos anos 1980, marcadas pela repressão política, pela supressão de direitos e pela reorganização profunda do tecido social.

Pietrina Checcacci, Estandarte,1967, série Povos Brasileiros, acrílica sobre canhamo, 122 x 91,5 cm

Com curadoria de Marcus Lontra e Rafael Peixoto, GUERRILHAS ARTÍSTICAS não busca classificar artistas em movimentos, mas revelar como a criação se tornou campo de embate em um momento histórico em que cada gesto estava atravessado pela vigilância e pelo medo. A exposição parte do Brasil urbano e modernizado do final dos anos 1950, que rapidamente mergulhou nas sombras do regime militar após 1964, e apresenta trabalhos que incorporam desde a crítica direta às engrenagens de poder até a invenção de linguagens que exploram o corpo, a ação e a desmaterialização.

O título da mostra ecoa o texto de Germano Celant, Appunti per una Guerriglia (1979), associado à arte povera italiana. A referência não estabelece parentesco formal, mas ativa um campo conceitual comum: práticas marginais ao sistema, ações que se infiltram pelas brechas, gestos que confrontam a ordem instituída e produzem zonas de resistência sensível. No Brasil, tais guerrilhas se davam tanto no enfrentamento simbólico quanto na invenção de modos de existir em meio à violência institucionalizada.

Regina Silveira, Mesa Executiva 2, 1975, serigrafia sobre papel, 50 x 70,5 cm

Entre as obras que estruturam o percurso expositivo está ‘Uma outra toca do Coati-Puru’ (1977), de Glauco Rodrigues, da série Visão da terra – a lenda do Coati-Puru, acrílica sobre tela sobre aglomerado de madeira (60 × 73 cm), em que o imaginário nacional é tensionado por uma leitura crítica e irônica da história e do território. De Paulo Bruscky, O Guerrilheiro (1969), nanquim sobre papel (30 × 23 cm), condensa em poucos traços a força corrosiva da resistência gráfica e conceitual que atravessa sua produção.

A exposição inclui também ‘Seja marginal, seja herói’ (1968/2012), de Hélio Oiticica, serigrafia sobre tecido (94 × 110 cm), obra-síntese de um posicionamento ético e político que desloca o corpo para o centro da disputa simbólica. De Anna Bella Geiger, Carne na tábua (1968), da série Visceral, guache, lápis de cor e nanquim (32 × 23 cm), introduz uma reflexão direta sobre violência, linguagem e estrutura social.

De Artur Barrio, Transportável (2003), técnica mista (80 × 30 cm), reafirma a precariedade ativa e a urgência material que caracterizam sua poética, operando no limite entre objeto, ação e vestígio. Já Bloftt! (1967), de Gilberto Salvador, acrílica sobre madeira (110 × 88 cm), confronta o cotidiano com uma linguagem visual incisiva, marcada pelo impacto gráfico.

O conjunto ‘Estandarte (1967), de Pietrina Checcacci, da série Povos Brasileiros, acrílica sobre cânhamo (122 × 91,5 cm), insere a dimensão popular e ritualística como campo de resistência estética e cultural.

Para os curadores, observar essas obras é compreender não apenas as estratégias de resistência do passado, mas os modos como elas reverberam no presente. Rafael Peixoto destaca que “a arte desse período opera como um exercício experimental da liberdade; cada gesto, por menor que fosse, trazia a potência de deslocar percepções e confrontar as engrenagens de poder que atravessavam a vida cotidiana”. Já Marcus Lontra afirma que “não se trata de enquadrar movimentos, mas de reconhecer práticas que afirmaram a dignidade humana diante da violência institucionalizada — e que, ao fazê-lo, moldaram uma parte decisiva da identidade cultural brasileira”.

 Paulo Bruscky, O Guerrilheiro, 1969, nanquim sobre papel, 30 x 23 cm 

SERVIÇO

Exposição: GUERRILHAS ARTÍSTICAS

Curadoria: Marcus Lontra e Rafael Peixoto

Local: Danielian Rio — Rua Major Rubens Vaz, 414 – Gávea, Rio de Janeiro

Período: até 28 de fevereiro de 2026

Horário de visitação:

segunda a sexta: 11h às 19h

sábados: 11h às 17h