AgendaArtes Visuais

“Sheroanawe Hakihiiwe: tudo isso somos nós” ganha mostra individual no MASP

Com 109 desenhos, monotipos e pinturas que resgatam tradições ancestrais, a memória oral e os saberes cosmológicos de sua comunidade yanomami, localizada no município de Alto Orinoco, na Amazônia venezuelana, a mostra "Sheroanawe Hakihiiwe: tudo isso somos nós" ocupa o Museu de Arte de São Paulo (famoso MASP) de 30 de junho a 24 de setembro de 2023.

Sheroanawe Hakihiiwe (Sheroana, Alto Orinoco, Amazônia venezuelana, 1971) é um artista visual yanomami, que atualmente vive em Mahekoto Teri, também em Alto Orinoco. Hakihiiwe começou a produzir na década de 1990, depois de seu encontro com a artista mexicana Laura Anderson Barbata. Juntos, desenvolveram uma técnica de produção de papel com fibras vegetais nativas – material que o artista utiliza como suporte para seus desenhos. Desde então, o artista passou a desenvolver desenhos mínimos e delicados, com padrões e símbolos coloridos e texturizados sobre a vasta e intensa relação que sua comunidade tem com a paisagem, sendo sua obra uma revisão contemporânea da cosmogonia e do imaginário yanomami.

“O trabalho que faço nestes papéis é próximo de todo o universo que conheço com a uriji [floresta], que vejo quando ando por ela acompanhado das pessoas da comunidade e da família. As diferentes fontes das tintas que usamos para fazer os pigmentos. Também conheço os animais e as plantas, seus rastros e como se movem na floresta. O shapori [xamã] fala comigo e me conta sobre as coisas, animais falam por meio dos xamãs, os espíritos nos ajudam”, conta Sheroanawe Hakihiiwe.

O subtítulo da exposição Ihi hei komi thepe kamie yamaki [Tudo isso somos nós] foi uma sugestão do artista para incorporar a diversidade de elementos que formam sua comunidade e seu entorno. Com 109 trabalhos, a mostra do MASP apresenta uma pequena parte desse universo a partir de desenhos, pinturas e monotipos produzidos sobre papéis artesanais, fabricados por Hakihiiwe com o uso de fibras nativas como cana, algodão, amoreira, banana e milho. Com cores e texturas distintas, esses suportes não são como os papéis neutros produzidos industrialmente, pois necessitam lidar com e contra o tempo em sua materialidade e conservação.

O universo simbólico de Hakihiiwe está diretamente relacionado ao sentido da sua produção. O curador André Mesquita conta que “o artista trabalha de modo contínuo criando pinturas, monotipos e desenhos únicos, séries sobre um mesmo tema e motivos visuais que se reiteram. O artista também tem um cuidado com a preservação: seu trabalho é um ato de memória redefinidor de relações, leituras, relatos e visões acerca das percepções e das noções de representação, arquivo, registro, observação, sonho, tecnologia, natureza, cotidiano e história. Para que não se percam, para que não se tornem invisíveis todos esses conhecimentos, ele busca preservá-los em um trabalho de defesa e persistência de uma memória coletiva reconstruída e materializada em sua obra”.

Nesse entrelaçamento de práticas, espécies, saberes e vidas, Hakihiiwe propõe um trabalho de tradução de imagens e materiais de valores culturais comunitários. Em diversos desenhos e pinturas, o artista usa tintas vegetais fabricadas artesanalmente e extraídas de folhas, frutas, animais e madeiras. Na monotipia Jena riye riye Folha verde, Hakihiiwe traz 24 folhas verdes em uma disposição que lembra um tratado de botânica, com cuidado especial dado à representação de suas nervuras. “O trabalho denota o olhar extremamente minucioso que o artista lança sobre os elementos da natureza, mesmo quando tomados em uma de suas expressões mínimas: uma folha”, reflete o assistente curatorial David Ribeiro.

Os direitos do povo yanomami habitante do território venezuelano foram reconhecidos pela legislação local em 1999, de modo semelhante ao que é garantido pela Constituição brasileira no que se refere ao direito à diferença, ou seja: sua organização social, política e econômica, bem como suas culturas e espiritualidades, línguas e territórios. Segundo Hakihiiwe, esse reconhecimento não impede, entretanto, a existência de ameaças reais e cotidianas aos Yanomami. O artista relata a tristeza que sente ao ver o rio Orinoco poluído, impedindo que as crianças possam brincar e se banhar nele. Ele também relata a destruição causada por não indígenas e que já levou à morte e ao desaparecimento de duas comunidades inteiras: “Não estamos muito bem agora”.

“Realizar uma exposição de Hakihiiwe no ano das Histórias indígenas, no MASP, significa apresentar ao público histórias de luta, sobrevivência e resistência, mas também de beleza, diversidade e criação, atentando para a responsabilidade, para a proteção, para os cuidados coletivos, para o pensamento crítico e para a preservação dos povos originários, de seus conhecimentos ancestrais e das pluralidades de suas culturas e territórios”, pontua Mesquita.

Sheroanawe Hakihiiwe: tudo isso somos nós integra a programação anual do MASP dedicada às Histórias indígenas. Este ano a programação também inclui mostras de Carmézia Emiliano, MAHKU, Paul Gauguin, Melissa Cody, além do comodato MASP Landmann de cerâmicas e metais pré-colombianos e a grande coletiva Histórias indígenas.

SERVIÇO

Sheroanawe Hakihiiwe: tudo isso somos nós
Curadoria: André Mesquita, curador, MASP, e David Ribeiro, assistente curatorial, MASP
1° subsolo (galeria)
30.6 — 24.9.2023
MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista
01310-200 São Paulo, SP
Telefone: (11) 3149-5959
Horários: terça grátis Bradesco, das 10h às 20h (entrada até as 19h); quarta a domingo, das 10h às 18h (entrada até as 17h); fechado às segundas
Agendamento on-line obrigatório pelo link masp.org.br/ingressos
Ingressos: R$ 60 (entrada); R$ 30 (meia-entrada)

Deixe um comentário

Sugeridos
Artes VisuaisAstros

Morre Yayoi Kusama, artista japonesa conhecida por sua obra polka dot

A artista de vanguarda japonesa Yayoi Kusama, que ficou famosa por suas...

AgendaArtes VisuaisAstrosMúsica

Mostra sobre RM, líder do BTS, abre retirada de ingressos gratuitos

Exposição “A Arte de Ser Humano — RM: The Human Behind the...

Artes VisuaisMúsicaNotícias

Brian May recria capa clássica do Queen com IA e critica o resultado

O lendário guitarrista do Queen usa capa do álbum ‘The Game’ (1980)...

AgendaMúsicaShows

Flávio Venturini comemora 50 anos de carreira com show no Rio

Bastidores, hinos da MPB no Circo Voador Cinco décadas dedicadas à criação...

Agenda

Los Bodegueros lançam álbum de estreia Rio Habana em conexão histórica entre o samba e os ritmos cubanos

Projeto FOI gravado entre  Rio e Havana conta com participações de Áurea...

Agenda

Paço Imperial realiza seminário sobre a produção artística do Nordeste

Com o objetivo de refletir sobre a produção artística da região Nordeste...

AgendaSem categoria

Poema Suspenso para uma Cidade em Queda na Funarte SP

Ainda sem uma posição sobre um novo terreno para o Teatro de...

Agenda

‘Dia de Festa’no Teatro Sabesp Frei Caneca

A criançada pode esperar muita brincadeira, diversão e interatividade nos shows que...

AgendaTeatro

“Lábios que Beijei”, adaptação da obra de Aguinaldo Silva, estreia no Teatro Laura Alvim

Adaptação inédita de Júlio Kadetti, supervisionada pelo próprio Aguinaldo Silva, apresenta no...

AgendaTeatro

“O Filho das Mães” em Ipanema

Comédia escrita há mais de duas décadas retorna aos palcos pela primeira...

AgendaTeatro

“O Espírito da Coisa” estreia na Tijuca

A moralidade e o desejo entram em rota de colisão em uma...

AgendaFilmes

12 filmes no Jardim Suspenso do Centro Cultural São Paulo

Na programação estão obras aclamadas pela crítica e que marcaram a história...