Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá revivem a Legião Urbana em noite nostálgica no Rio

Muito se diz que Legião Urbana não tem fãs, tem fiéis. Tanto que era irreverente ou ironicamente chamada de “Religião Urbana” por alguns detratores. A seita tinha como pregador e profeta Renato Manfredini Jr, que atendia pelo pseudônimo de Renato Russo.

Sua figura mobilizava multidões de jovens pelo Brasil inteiro e a ebulição de sentimentos desencadeada em seus cultos (não é exagero se referir aos shows da banda como tal) poderiam resultar em uma absurda comunhão de corações e mentes como terminar em confusão e quebra-quebra, como o visto na fatídica apresentação no estádio Mané Garrincha em Brasília.

Renato Russo partiu do plano material em outubro de 1996 e deixou órfão todo um séquito de fãs que, tais quais apóstolos, transmitiram para gerações seguintes os ensinamentos do mestre. E ninguém com mais autoridade para a tarefa do que os dois guardiões do legado da banda formada na fervilhante cena rock de Brasília dos anos 1980.

O guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo Bonfá se uniram para comemorar os 30 anos da Legião com uma muito bem-sucedida turnê entre 2015 e 2016, que se encerrou com dois shows de lotação esgotada no Circo Voador (saiba como foi aqui).

Em 2022, a dupla – quase um ano após vencer a luta na justiça contra a reivindicação do herdeiro de Renato do direito de uso exclusivo do nome e marca Legião Urbana, que impedia o uso da marca por terceiros – retorna aos palcos para proporcionar mais uma experiência legionária aos fãs nostálgicos, e àqueles que não eram nascidos quando Renato morreu.

Abertura luxuosa

A ocasião se deu no aniversário de 45 anos da Rádio Cidade, a rádio rock carioca que organizou a festa no Qualistage, no Rio de Janeiro. O primeiro show da noite foi o de Suricato, o homem de múltiplos projetos, que tem sido mais visto à frente do Barão Vermelho. Essa foi a oportunidade de o público rever seu trabalho solo.

Em seguida subiu ao palco o baixista Fernando Rosa, que começou mostrando seu trabalho no Facebook, ganhou visibilidades com lives durante a quarentena e ganhou projeção internacional com elogios de gente como Lenny Kravitz, Duff McKagan e Slash, do Guns N’ Roses. Seu show consiste em tocar ao vivo, com banda, um medley sobre base pré-gravada de clássicos da soul e disco dos anos 70. O resultado sacudiu o público (sobretudo os mais velhos) antes da atração principal.

E chegam os donos da festa…

28 anos depois, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá retornam ao palco da Barra da Tijuca onde fizeram os últimos shows da Legião com Renato Russo. Na ocasião era a turnê do disco “O Descobrimento do Brasil”, a última da banda. Devido à grande procura (fazia quatro anos que o trio não tocava ao vivo no Rio) uma noite extra precisou ser aberta, totalizando três apresentações com casa cheia.

Se naquela ocasião, o show fazia parte de uma extensa divulgação, o da noite de ontem era pura celebração de um legado. Não há dúvidas que a Legião Urbana é a banda mais mítica e cultuada da geração 80. Ao som de ‘Rise’ do P.I.L., a dupla adentrou o palco e junto com o vocalista convidado André Frateschi atacou com o primeiro hit da noite, ‘Daniel na Cova dos Leões’.

Ao contrário do show da turnê XXX, que contava com André nos vocais, eventualmente dando lugar a outros convidados, nesse show ele assume a maioria das músicas, cedendo espaço para Dado e Bonfá darem vazão a suas versões vocalistas. A banda de apoio conta com tecladista, baixista e um segundo guitarrista para encorpar a guitarra principal, além de se alternar com violão acústico em algumas canções, como na segunda do show, ‘Quase Sem Querer’.

Em ‘Eu Sei’, ainda nos acordes iniciais a plateia já começou a cantar. Nela Dado até arrisca uns solos longos, coisa improvável na época de Legião, quando era um guitarrista bastante econômico. ‘Índios’ foi outro clássico recebido calorosamente pelo público.

‘Ainda é Cedo’ teve Bonfá assumindo os vocais. Foi seguida de ‘Geração Coca-Cola’, já com André de volta ao microfone e logo na sequência houve espaço para a música mais obscura do setlist, ‘Baader-Meinhof blues’, do debut da Legião, de 1985. Mas foi apenas uma prenda para os fãs mais radicais. Logo os hits foram retomados com ‘Soldados’.

Em ‘O Teatro dos Vampiros’, teve Dado assumindo o vocal, assim como na turnê XXX. A versão com Bonfá, vista no Tributo a Renato Russo no Rock In Rio de 2011 ficava mais próxima da original, que precisou baixar mais de um tom para se adequar ao alcance de voz do guitarrista. Já na faixa ‘Giz’, que Dado lembra que era a preferida de Renato, seus vocais são bem mais convincentes.

‘Pais e Filhos’, com Bonfá e André trocando seus postos, o primeiro assumindo os vocais e o segundo a bateria, como se esperava foi acompanhada em uníssono, como nos shows da Legião. Na seguinte, ‘Eduardo e Mônica’, com Bonfá ainda nos vocais, André tocou a gaita e a música foi levada toda sem bateria, até que no final Bonfá volta às baquetas para finalizar.

‘Faroeste Caboclo’ é uma das faixas mais amadas pelos fãs e uma das mais tocadas por covers, todavia é uma tarefa ingrata levar o épico que só encontrava mesmo toda sua grandeza com seu compositor. Em ‘Angra dos Reis’ André executou os vocais com bastante fidelidade à versão original.

Depois de ‘Há Tempos’  André diz “o pesadelo tá acabando”, em clara alusão ao fim do governo de Jair Bolsonaro. Foi a deixa para ‘Será’ e ‘Tempo Perdido’, com Dado no vocal. Foi quando a banda saiu do palco, mas, claro, voltaria para um bis.

A volta se deu com ‘Por Enquanto’, em que André pediu a ajuda da plateia que cantou com acompanhamento da banda (snipet de Heroes do Bowie). ‘Fábrica’ abriu a reta final que enfileirou a faceta mais indignada com mazelas do repertório da Legião. Dado lembrou da ditadura militar e das torturas nela praticadas no ano em que nasceu. A afirmação da certeza da impossibilidade da volta do regime foi sucedida por um “vai tomar no cu Bolsonaro!”, para a euforia dos que já vinham tentando puxar esse coro na plateia. O protesto foi seguido de ‘1965 (Duas Tribos)’.

‘Que País é Esse’ e ‘Perfeição’ fecharam a noite. Ao final da apresentação, André estendeu uma faixa da Legião com sua formação original, incluindo o baixista Renato Rocha, o Negrete, morto em 2015. O gesto corroborou o caráter de celebração da noite. Fãs mais ardorosos podem ter sentido falta de uma ou outra música menos conhecida do grande público, mas a apresentação era uma festa para todos, e mesmo privilegiando apenas os grandes hits, foi um total de 22 músicas. Isso deixa muito claro que a força mítica da Legião Urbana ainda está bem longe de se dissipar.

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