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Fazer simples para fazer bem. A poética de André Galvão

A simplicidade nunca pode ser enxergada como algo menor. Em várias ocasiões, fazer simples é melhor que o rebuscar de quem tenta dar complexidade a algo para esconder que não o domina. Na literatura não é diferente. Há quem invente tanto que o resultado seja qualquer coisa menos matéria escrita. Em seu livro de estreia, André Galvão, licenciado em letras, mestre em literatura e doutor em educação, optou pelo bom senso e pelo caminho – nada fácil – de fazer o básico e dele extrair beleza.
Nascido em Salvador, em seu “A Travessia das Eras” (Penalux / 2018), André transita por elementos do cotidiano e da contemporaneidade, mesma matéria lindamente cerzida pelo também nordestino Mailson Furtado em seu premiado “à cidade”, vencedor da 60ª edição do Jabuti em duas categorias (poemas e melhor livro do ano).
André tem um caminho a seguir. Isso é bom. Sua poesia é construída de garotos pobres, vendedores de doces, pessoas normais que trabalham. Enxerguem a beleza que reside em suas esquinas, seria esse um recado se o livro gritasse a plenos pulmões.
Em “O Menino e a Pedra”, logo no início, é estabelecida uma conexão entre o menino, que poderia ser qualquer um dos que transitam pelas nossas cidades entorpecidos de tanta droga, e a Pedra, tanto descrita como pedaço de concreto com que ele vence seus desafios ou encarada como bela representação do crack. E o menino tudo consegue em sua amizade com a Pedra até que dela se desfaz e segue sozinho. Dividido em quatro partes, as melhores são as duas primeiras, em que qualquer ausência de pretensão torna a poesia de André extremamente agradável. Nas duas partes seguintes o poeta se perde um pouco ao buscar dar profundidade à compreensão do mundo pelo seu “eu poético”. Os poemas desses trechos não são ruins, mas há uma inconstância de qualidade que afeta o conteúdo do conjunto. Erro comum em livros de estreias. Alguns poemas do fim, os mais curtos, parecem “cansados”, ali colocados para preencher o livro. São desnecessários – por afetarem a unidade do projeto, não pela sua qualidade.
Considero “Perdas Irrevogáveis” um dos mais belos do livro. Nele a tristeza e a falta de pretensão denotam alma na escrita. Assim como “O Próximo Ônibus”:
 
“a cidade cresce
a cada minuto,
enquanto nós
permanecemos calados”
(O Próximo Ônibus, podema de A Travesia das Eras)
 
A Travessia das Eras foi publicado pela editoria paulista Penalux, uma das melhores editoras brasileiras no segmento de literatura e que tem um selo para escritores em início de carreira, o Lampejos. Conversar com o editor Tonho França é uma ótima ideia para quem está iniciando no mundo da literatura ou quer começar a se programar para lançar um livro. De ponto a melhorar, apenas a capa de alguns livros – internamente o trabalho gráfico é primoroso. A editora não conseguiu ainda construir uma identidade visual sólida, algo que a identificasse apenas pelas suas artes.
A Travessia das Eras pode ser adquirido no site da Editora Penalux.
 

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