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O mundo fabuloso de Björk em “Utopia”

Booklet Bjork Utopia

Já ficou até difícil classificar o gênero musical de Björk. Ela se lançou na cena pop à frente da banda Sugarcubes (mas bem antes disso, quando criança, gravou disco de música nativa islandesa). A bem sucedida carreira solo se iniciou no álbum que levava o sugestivo nome de “Debut”. O seguinte, “Post”, serviu para consolidar seu status. E agora chega seu novo trabalho, “Utopia” (One Little Indian/2017). São verdadeiras pinturas abstratas sonoras ao longo de 14 faixas.

Björk continua refugiada em seu mundo próprio, impenetrável para os rótulos da imprensa musical. Pop? New Age? Esqueça, é apenas…Björk. Em que categoria classificar a faixa ‘Arisen My Sense’? E a faixa-título? Desista, é inútil. Mais fácil se entregar ao deleite oferecido pela diminuta esquimó. Seguindo a mesma característica dos discos mais recentes, “Utopia” traz estruturas em que os refrões não possuem muita importância. Porém, pode ser considerado como um passo ainda mais fundo no experimental do que Vulnicura ou Medula. As raízes ancestrais nórdicas e a tradição celta marcam forte presença nas composições. Temos de flautas a sons da natureza, demarcando sofisticação e ao mesmo tempo evocando força primitiva.

O álbum foi todo produzido pela cantora em parceria com o venezuelano Arca. O produtor, músico e DJ já havia trabalhado com ela no disco anterior, “Vulnicura”. Esse é o trabalho em que a parceria dos dois se mostra ainda mais consolidada. A islandesa chama esse de “disco Tinder”. Se o anterior era sombrio refletindo o momento do divórcio, esse é mais otimista. Mas não sem deixar derramar um pouco de dor em alguns momentos.

Em ‘Sue Me’, por exemplo, ela canta “He took it from his father/Who took it from his father/Who took it from his father/Let’s break this curse/So it won’t fall on our daughter/And her daughter/And her daughter/Won’t let this sink into her DNA”. Na tradução, “Ele tomou de seu pai/que tomou do pai dele/Que tomou do pai dele/vamos quebrar essa maldição/Daí não vai recair sobre nossa filha/E a filha dela/E a filha dela/Não vamos deixar isso penetrar no DNA dela”. É um brado contra a sociedade patriarcal. E também (já no título) lembra o processo movido pelo ex-marido Mathew Barney, que alegava ter sido proibido de ver a filha. A música é precedida por ‘Losss’, com a qual forma uma suíte.

Para alguns, o disco pode soar arrastado em alguns momentos. Não é uma obra de assimilação imediata como os primeiros dois trabalhos da cantora. Requer audição dedicada, que, se for assim feita, com todas as sutilezas percebidas, levará o ouvinte a uma poderosa imersão. É o mundo fabuloso de Björk, cheio de matizes, texturas sonoras e muita poesia, nas letras e nos arranjos. “Utopia” nos assegura uma boa viagem.

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