Ozark 105 Unit 00364 CC5
CríticasTV

“Ozark” subverte seu DNA derivativo da chamada “Era de ouro da tv americana”

Após o boom da chamada “Era de Ouro da TV americana“, no qual surgiram séries seminais que até elevaram o nível do veículo TV como obra de arte nos EUA, era esperado que a ressaca criativa aparecesse em algum momento. Entretanto, mais do que isso, um clichê recorrente tem marcado essas dramaturgias, com vícios certeiros em investigar a complexidade de anti-heróis dentro de suas famílias desestruturadas – geralmente com esposas refletindo esses abismos – e diante da complexidade de suas próprias escolhas errôneas. Podemos enumerar, só das que estão no ar, umas quatro tramas que são variações desse paradigma. Ozark não foge à regra. Afinal, a Netflix precisava de seu quinhão na tendência.

Mas Ozark sabe usar essa apropriação a seu favor, e é por isso que a série ganha tanta espessura em seus envolventes dez episódios. Projeto empreendido pelo ator Jason Bateman (tão bom com comédia quanto no drama), o qual dirige e também protagoniza como o consultor financeiro Marty Bird, um pai de família, a priori honesto, até que um narcotraficante o contrata para rentabilizar suas finanças. Daí ele acaba entrando num esquema de lavagem de dinheiro e consequentemente dos bastidores do tráfico de drogas, tendo que ir morar nos arredores do lago Ozark, no interior dos Estados Unidos, com sua esposa Wendy (Laura Linney, sempre excelente) e seus dois filhos.

A questão é que a cidadezinha não dá nome a série impunemente. Existe ali uma gama de personagens insanos e ordinários que só amplificam a enrascada que Marty está envolvido. Emerge daí uma notável habilidade da produção: o grande número de bons personagens que condensam a história principal, e o destaca da previsibilidade de suas tendências.

Julia Garner, como a garota que é o esteio emocional da família ordinária, e que vai de algoz para cúmplice de Marty, num percurso dramático muito bem escrito, é um claro destaque na trama. O roteiro também merece louros, uma vez que sua narrativa parece sempre procurar surpreender diante do um campo tão minado que vai construindo. Ainda que deixe alguns furos, funciona bem dentro do que se propõe, até a tensão anunciada no episódio final dessa primeira temporada, que termina de maneira melancólica mas persuasiva para seguirmos acompanhando as desventuras éticas de nosso protagonista em seu meio pernicioso.

No final do primeiro episódio, tem uma cena em que Bird está diante de uma espécie de ribanceira ao som da canção “Decks Dark“, do Radiohead. A música, a trilha e o olhar dele apontam diretamente para o que nos espera. São nesses detalhes, felizmente repetidos ao longo dos episódios, que estão as justificativas para Ozark ser mais que uma derivação de tendências televisivas. Ou ser uma subversão delas. 

Deixe um comentário

Sugeridos
Thunder Hoop Collection (QUByte Classics)
CríticasGames

Thunder Hoop Collection: o segundo conserta o que o primeiro estragou

A QUByte Classics juntou dois arcades da Gaelco na Thunder Hoop Collection:...

5b1aad8eff4579d3ed29f194435f3f49f629f6c64373b368cb390473a6029a9e
CríticasGames

Apidya’ Special: a abelha morre, a voz repete e a paciência acaba

Apidya’ Special é a refeitura de um shmup do Amiga lançado em...

Froggy Hates Snow
CríticasGames

Froggy Hates Snow quase frita o “Switão” em nome da diversão.

Um sapo, um deserto congelado e uma bolha de calor da qual...

Manairons
CríticasGames

Manairons e sua falta de “Tompêrro”

Manairons é um platformer 3D de ação que bebe do folclore catalão...

Kitchen Wars
CríticasGames

Kitchen Wars: o restaurante pega fogo, mas o cardápio é curto

Overcooked e Moving Out ensinaram muita gente a gritar com os amigos...

City Hunter
CríticasGames

City Hunter: divertido e mal maturado.

City Hunter nasceu em 1990 no PC Engine, baseado no mangá de...

Leste do eden ambrosia critica
CríticasSériesTV

Leste do Éden constrói um linda história sob olhar cortante

Existe uma carga poética e quase inescapável na adaptação de Leste do...

The Holy Gosh Darn
CríticasGames

The Holy Gosh Darn: o roteiro salva o céu

Confesso que não me motivo muito com jogos sem muita mecânica de...

Voidwrought
CríticasGames

Voidwrought: faz o óbvio melhor que todo mundo

Às vezes basta fazer o óbvio melhor do que todo mundo, e...

Contos Paralelos
CríticasFilmes

Festival do Rio 2026 – “Contos Paralelos” e a Fronteira Difusa Entre Fato e Ficção

Asghar Farhadi constrói elaborado meta-drama parisiense inspirado em Kieślowski e Hitchcock, que...