Do interior à poesia: Sarah Munck e o olhar poético de O diagnóstico do espelho

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No seu mais recente lançamento, “O Diagnóstico do Espelho” (119 pág., Editora Mondru), a escritora Sarah Munck (@sarahmunckv) mergulha nas intrincadas tramas do viver feminino e neuro divergente. A obra, publicada pela editora Mondru, é uma coletânea de poesias que aborda temas como fases da vida, ciclos, mudanças e cobranças estéticas e comportamentais, destacando as batalhas enfrentadas pelas mulheres no enfrentamento ao patriarcado e na convivência com a neurodivergência. Sarah apresenta uma poética modernista e surrealista, entrelaçando metáforas e “concretudes”. A autora dedica poemas a crianças neurotípicas e atípicas, explorando sua própria neurodiversidade, além de abordar questões socioculturais, como a violência de gênero e o patriarcado.

Sarah Munck Vieira, nascida em Juiz de Fora – MG, é pesquisadora e professora de Língua Portuguesa, Literatura e Língua Espanhola no Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais. Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora, a autora também está em processo de doutoramento na mesma área. A poesia sempre foi uma expressão artística presente em sua vida, tendo publicado seu primeiro livro, “Digressões em meia-volta”, em 2022. Além de suas contribuições literárias, Sarah envolve-se em projetos de extensão e pesquisa nas áreas de língua, literatura e cultura. Seu mais recente trabalho, “O Diagnóstico do Espelho”, destaca-se pela abordagem da vivência feminina e neurodivergente, trazendo à tona reflexões importantes sobre igualdade, feminismo e justiça social.

O que motivou a escrita do livro? Como foi o processo de escrita?

O agravamento da pandemia e as restrições me levaram a olhar, com maior profundidade, para meu interior e, de forma interessante, a enxergar as minhas semelhantes, isto é, as mulheres e suas trajetórias repletas de violência, mas também bravura.

Quais são as suas principais influências literárias?

Hilda Hilst,  Gabriela Mistral e Eduardo Galeano, que inclusive foram influências diretas na escrita de Diagnóstico do Espelho. Além deles, Josefina Plá, Alejandra Pizarnik, Mário Cesariny, Ferreira Gullar,  Roberto Piva, Pablo Neruda e Júlio Cortázar são autores que me influenciam como escritora de forma geral. 

Como começou a escrever?

Escrevo desde criança, principalmente poesia. Inclusive, guardo uma cópia de um poema que fiz nos primeiros anos escolares. Portanto, o ato da escrita acompanha toda a  minha existência: seja como poeta, seja como professora e pesquisadora.

Como você definiria seu estilo de escrita?

Na poesia, creio eu,  que meu estilo de escrita dialoga com o modernismo e com o surrealismo. Acredito que, em meus poemas, confluem metáforas e “concretudes”. Gosto de brincar com as palavras e retirá-las de seu uso comum para testar que a língua é, sem dúvida, um organismo vivo e misterioso. Outrossim, questões existenciais e filosóficas e elementos intimistas dão sangue ao meu corpus poético, mas também busco olhar para o exterior, quero dizer, para aquilo que está além de mim ou, simplesmente, me entrecorta, constrói e intercepta. Sendo assim, vetores sócio-políticos são, de forma igual,  de meu real interesse.

Como é o seu processo?

O meu processo de escrita começa por leitura e pesquisa contínuas. Quando almejo escrever sobre determinado tema, realizo uma interessante busca bibliográfica, sócio-histórica, pragmática e cultural. Consequentemente, além de dar voz aos pensamentos por meio da expressão linguística, acredito ser importante mergulhar na intencionalidade da escrita, visto que, escrever, é também uma atividade interacional. 

Aqui, falo sobre o objeto (a própria poesia), a temática e o público leitor. Portanto, quando desenvolvo um livro de poemas, por exemplo, não busco apenas instrumentalizar os mecanismos inerentes à língua. Mas procuro delinear, de forma simultânea, a mensagem a ser transmitida e os possíveis caminhos para o texto. Assim, o conhecimento prévio, os eixos sócio discursivo, linguístico, literário e filosófico, a memória e a construção do público leitor  configuram meu projeto literário.

Você tem algum ritual?

O meu ritual de escrita começa pela leitura e pelo estudo. Acredito, verdadeiramente, que quem escreve poesia deve ler e estudar o gênero todos os dias. E não apenas os textos poéticos: é preciso se debruçar sobre manifestações orais e escritas de diferentes gêneros, literários ou não.

O ritual da escrita envolve, também, a leitura do mundo e do universo que me cerca, isto é, observar as pessoas e os seus acontecimentos/não acontecimentos pequenos e grandiosos fomenta a minha oralidade e a minha expressão escrita.

Não estabeleço meta diária para o ofício da escrita, a não ser para a pesquisa acadêmica ou para a docência. No entanto, procuro escrever todos os dias e o faço em qualquer lugar ou horário. Pode ser numa folha em branco de caderno ou no bloco de notas do celular. Dessa maneira, um artigo acadêmico pode se transformar em um verso; um texto filosófico em outro verso; um livro degustado em sinestesia; a buzina do ônibus em elipse; a saudade na faringe do pássaro, na próxima estrofe.

Escrever é essa confluência de sons e ecos e, sobretudo, vazios. Escrever é olhar nos olhos dos que se foram e permanecem nas palavras. E escrever é, de igual modo, sentar-se à mesa de meus contemporâneos.

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