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A análise da condição humana em “Um Herói”, de Asghar Farhadi

Filme ainda colocou o iraniano em meio a uma polêmica de autoria

Uma das funções mais nobres do cinema é sua capacidade, quando bem feito, de nos colocar no lugar do outro, do personagem deste ou daquele filme. Nesta circunstância, em que entendemos o outro e torcemos por ele, podemos passar pelas mais variadas dificuldades e sentir praticamente por completo a condição humana, com todas as suas dores. Um dos mestres em empatia no cinema atual é o iraniano Asghar Farhadi, que em seu novo filme Um Herói mais uma vez exercita a capacidade do público de se colocar no lugar do protagonista, por mais que sua situação seja alienígena à nossa realidade.

Rahim (Amir Jadidi) está preso por dívidas. Numa saída de dois dias da cadeia, ele acredita que poderá finalmente ficar livre quando a mulher que ama, Farkhondeh (Sahar Goldust), anuncia que encontrou uma bolsa com várias moedas de ouro. Primeiro Rahim tenta vender as moedas mas, incapaz de chegar ao valor da dívida e persuadido pela irmã, muda de ideia e decide devolver as moedas e a bolsa a quem quer que as tenha perdido. Seu ato de altruísmo o transforma em um herói.

A história de Rahim aparece na televisão. Na saída seguinte, ele é recebido com honras por todos, que fazem uma vaquinha para ajudá-lo a pagar a dívida. Rahim é homenageado e prometem conseguir um emprego para ele. Os problemas começam quando surge uma dúvida: será que Rahim foi realmente altruísta ou foi tudo um feito combinado? Para provar sua bondade, ele precisará encontrar a dona da bolsa, algo que se provará mais difícil do que se esperava.

A busca pela dona da bolsa, verdadeira corrida contra o relógio, é bem menos eletrizante que outras corridas contra o tempo, por exemplo as que encontramos em filmes hollywoodianos. É, como outros filmes escritos e dirigidos por Farhadi, um “slow burner”, um filme que vai se revelando lentamente conforme a ação vai acontecendo.

Influências e diálogos possíveis

No aplicativo Letterboxd, há uma série de recomendações de filmes que vão agradar a quem gostou de Um Herói. Dentre estas indicações, três me chamaram a atenção: a obra-prima pouco conhecida da Warner Brothers O Fugitivo, de 1932, o filme seminal do Neorrealismo Italiano, Ladrões de Bicicleta, de 1948, e o papa-Oscar queridinho Parasita, de 2019.

O Fugitivo conta a história de um homem que, por estar no lugar errado na hora errada, acaba sendo preso e enviado para uma cadeia onde precisará fazer trabalhos forçados. O tema prisional, obviamente, o une a Um Herói, mas há mais: são ambos melodramas potentes, sobre a condição humana nas situações mais ásperas. A saga de um Jean Valjean moderno, interpretado por Paul Muni, O Fugitivo reforça a tese de que cadeia não redime ninguém, tese esta que quase passa batido em Um Herói.

Ladrões de Bicicleta é a história de um pai e seu filho enfrentando um problema que parece pequeno, mas na verdade é imenso: após ter sua bicicleta roubada, o pai fica impedido de exercer seu trabalho, sua única fonte de renda, colando cartazes de filmes. A bicicleta do protagonista é como a mulher misteriosa dona das moedas de ouro que Rahim devolveu: é um elemento que parece simples, mas sem o qual a vida do protagonista é virada de cabeça para baixo.

Parasita é um filme sobre o qual é difícil falar sem dar spoilers. Podemos apenas apontar que se trata de um filme sobre a precariedade da condição humana, sobre relações e conflitos de classe. Mais surpreendente que Um Herói, mesmo assim compartilha com o filme iraniano uma miríade de possíveis questões que podem ser postas para os espectadores ao final da projeção.

Polêmicas de autoria

É impossível falar sobre Um Herói sem citar a polêmica que envolveu o lançamento do filme. Azadeh Masihzadeh, uma ex-aluna de Asghar Farhadi, acusou o diretor e roteirista de ter roubado sua ideia, compartilhada durante um curso no qual Farhadi pediu exatamente que os alunos contassem, na forma de um documentário, histórias de pessoas que encontraram e devolveram objetos de valor. A história de Azadeh deu origem ao média-metragem All Winners, All Losers, e a cineasta decidiu processar Farhadi por plágio.

E este não foi o único processo que Farhadi enfrentou por causa do filme: Mohammad Reza Shokri, o homem que inspirou Azadeh, também processou Farhadi por danos à sua reputação através do filme Um Herói.

Com estas histórias de bastidores tão interessantes quanto a própria trama do filme, Asghar Farhadi, duas vezes ganhador do Oscar, viu a si mesmo ir de herói a vilão, da mesma maneira como acontece com Rahim no filme. Analisar a condição humana através do cinema não é novidade. Conseguir uma análise extra através de polêmicas de bastidores, isso sim enriquece um já bom filme.

Um Herói

Um Herói
8 10 0 1
Nota: Excelente - 8/10
Nota: Excelente - 8/10
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