Asterix foi criado em 1959 por René Goscinny e Albert Uderzo, primeiro na revista Polite, e a partir de 1961 em “álbum” próprio, com uma nova edição a cada ano. Traduzido para 83 línguas em seus mais de 60 anos de existência, Asterix já tem 13 filmes, entre animação e live-action. Para se fazer um live-action de Asterix, é impossível escapar do kitsch e do exagerado, e isso fica patente na nova aventura cinematográfica do gaulês: Asterix e Obelix no Reino do Meio, que acaba de estrear na Netflix.
No ano 50 a.C., quase toda a Gália foi dominada pelos romanos – a exceção é a aldeia onde vivem nossos heróis. Encontramos os dois pela primeira vez quando Asterix (Guillaume Canet) está conjecturando e se perguntando se eles deveriam comer menos javali e mais legumes, e assim não precisariam da poção mágica de Panoramix para ter força. Ele logo aprenderá que pode substituir a poção pelo amor, ao se apaixonar pela princesa So Hi (Julie Chen), herdeira do trono do “Reino do Meio”, nome usado pelos gauleses para se referirem à China.
Um dos cinco príncipes descontentes com o governo da imperatriz chinesa, mãe de So Hi, capturou a governante e está atrás da jovem herdeira para decapitar ambas. O consultor do príncipe usurpador, sabendo da fuga de So Hi para a Gália, vai para Roma atrás do apoio do imperador Júlio César (Vincent Cassel). Pego em meio a uma briga conjugal com Cleópatra (Marion Cotillard), César aceita ir à China como meio de expandir sua popularidade. Também rumam para a China, ou melhor, para o Reino do Meio, Asterix, Obelix (Gilles Lellouche), Ideiafix, a princesa So Hi, a guarda-costas da princesa e o falso gaulês Pipocote (Jonathan Cohen).
Asterix e Obelix no Reino do Meio se torna road movie ao acompanhar a peregrinação cortando meio mundo até chegar à China. O filme também se aproxima das produções de kung fu com a presença esmagadora da guarda-costas de So Hi, e salpica em seus 111 minutos elementos de comédia, romance e ação.
Vale ressaltar um trabalho quase invisível, mas essencial para que desfrutemos dos filmes e séries: o do tradutor. Aqui ele se faz mais presente na troca de nomes: nomes próprios que são trocadilhos em francês precisam ser modificados na versão em português, para que continuem causando riso. Quem traduziu Asterix e Obelix no Reino do Meio – os créditos não nos deixam deixá-lo no anonimato: foi Raphael Carvalho – foi muito feliz em fazer pequenas modificações que em nada atrapalharam o andamento da história, mas adicionaram mais risadas à experiência de ver o filme.
Guillaume Canet não apenas encarna o protagonista como também dirige o filme e ajudou no roteiro, uma rara história original de Asterix. Num primeiro momento, era esperado que Canet interpretasse Júlio César, mas a participação especial de Marion Cotillard – que já teve um relacionamento amoroso com Canet – como Cleópatra faria o filme lembrar outra produção com os dois atores: “Rock’n Roll – Por trás da Fama” (2017). Outra mudança feita por Canet foi a decisão de não filmar na China, depois de um longo período de pesquisa de campo interrompido pela pandemia da COVID-19.
Divertido para os pequenos e os adultos – mais para os pequenos que para os adultos, é verdade – Asterix e Obelix no Reino do Meio pode não ser tão bom quanto as aventuras animadas da dupla de gauleses: na verdade, o filme empalidece se comparado à mais recente animação com os personagens, “Asterix e o Segredo da Poção Mágica” (2018). Algumas suspensões de descrença e outras mágicas cinematográficas só são possíveis na animação, mas os filmes de live action continuam tentando emular esse mundo mágico – por vezes, com resultados bem decentes.
Gostei muito dos trocadilhos e dealgumas situações bem próximas das HQs.