Back to Black opta por um retrato intimista de Amy Winehouse, mas conta a história pela metade

Amy Winehouse era gente como a gente. Revestida de uma imagem que se tornou icônica, com um visual inspirado nas divas do jazz e da soul music, em pouco tempo de carreira alcançou o topo das paradas trazendo aquela música sofisticada com uma linguagem pop e letras pessoais que estabeleciam conexão imediata com os ouvintes.…


Back to Black resenha filme ambrosia

Amy Winehouse era gente como a gente. Revestida de uma imagem que se tornou icônica, com um visual inspirado nas divas do jazz e da soul music, em pouco tempo de carreira alcançou o topo das paradas trazendo aquela música sofisticada com uma linguagem pop e letras pessoais que estabeleciam conexão imediata com os ouvintes. É justamente nesse lado mais humano, essencial para suas composições, que a cinebiografia “Back to Black” optou por focar. O filme foge da estrutura já lugar-comum de se contar a trajetória de um artista mostrando a ascensão, queda e redenção, mostrando o surgimento das músicas como passe de mágica, e um show icônico de forma espetaculosa. Esse delineamento até serve como guia para a produção, mas não com o revestimento que se espera.

Muito mais uma homenagem do que uma biografia, aqui temos a jornada de Amy Winehouse narrada com descrições fulgurantes das ruas de Camden Town, seu amado reduto em Londres, abordando sua criatividade, humor e franqueza, além dos desafios da fama internacional, bem como a busca por compreender suas lutas internas. De quebra, propõe-se a fornecer uma análise implacável da cultura de celebridades contemporânea, da qual a cantora se tornou vítima.

O roteirista Matt Greenhalgh tem no currículo as cinebios do líder do Joy Division, Ian Curtis (“Controle: A História de Ian Curtis”), e John Lennon (“O Garoto de Liverpool”) e em ambas ele procura focar muito mais nas particularidades do biografado do que no espetáculo propriamente dito. Em “Back to Black” ele se desvencilha da formatação de “Bohemian Rhapsody” para compor uma abordagem mais pé no chão e intimista. No entanto, ele se esquece que a carreira é algo primordial na história de uma estrela da música, e colocá-la em segundo plano não é a decisão das mais acertadas.

Ao longo do filme não sentimos o impacto da ascensão meteórica de Amy. A chegada das músicas às paradas de sucesso é tratada com banalidade. O roteiro até acerta em mostrar como fatos da vida de Amy influenciam nas composições de suas músicas, assim como suas referências musicais todavia, uma ausência é notável (e imperdoável): a do produtor Mark Ronson, peça fundamental para o estouro de Amy.

A diretora Sam Taylor-Johnson, que dirigiu “O Garoto de Liverpool” e cometeu “Cinquenta Tons de Cinza”, procura retratar a Camdem de Amy de forma vívida e efervescente, com todos os tons do boêmio bairro inglês, tornando-o também um personagem. E é possível observar influência da New Wave of British Film, o Cinema Novo inglês, e de seus mestres como Ken Loach. Embora a edição seja claudicante em determinados momentos, a fotografia competente de Polly Morgan proporciona um belo amparo. Alguns shows são recriados com bastante fidelidade (o que remete à cinebio do Queen), assim como o lado mais solar, se é que podemos dizer assim, de Amy é mostrado com acertada sagacidade. No entanto, a direção peca justamente nos momentos mais dramáticos, em que a trama ganha ares de telefilme pouco cuidado, com tons mal ajustados.

Marisa Abela recebe a difícil tarefa de incorporar Amy Winehouse. É sabido que interpretar figuras icônicas sempre deixa à espreita o perigo da caricatura. Marisa escapa, e se sai bem em boa parte do tempo, reproduzindo adequadamente os maneirismos de Amy, até os trejeitos mais sutis. Sua voz também merece destaque, uma vez que ela mesma canta as músicas (não é dublada como no caso de Rami Malek quando interpretou Freddie Mercury) com um resultado convincente. Apesar de não tão parecida com a cantora, sua composição é satisfatória e alguns ângulos de câmera escolhidos pela diretora são favoráveis.

Por fim, “Back to Black” acaba se prejudicando por ser mais uma cinebiografia musical com a “supervisão” da família (como foi o caso de Whitney Houston), com várias passagens mais polêmicas passando ao largo do roteiro. Com tantas supressões, acabou ficando uma história contada pela metade para não manchar o tributo. Com isso, a dica para quem realmente quer conhecer a vida de Amy Winehouse é o excelente documentário “Amy”.

Back to Black

Back to Black
5 10 0 1
Nota: 5/10 – Regular
Nota: 5/10 – Regular
5/10
Total Score iRegular