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Crítica: “Foxcatcher: Uma História Que Chocou o Mundo” intriga, mas não é para todos

Em sua curta carreira como diretor de longas-metragens, Bennett Miller já pode se considerar um vencedor, já que, com apenas três filmes em seu currículo até agora, já foi indicado ao Oscar duas vezes e ganhou o prêmio de Melhor Direção do Festival de Cannes, entre outras conquistas, em menos de dez anos. Uma de suas principais qualidades está na maneira com que conduz seus atores, que entregam atuações surpreendentes e exemplares, como a de Phillip Seymour Hoffman em “Capote” (2006), que lhe deu seu único Oscar, ou Brad Pitt e Jonah Hill em “O Homem Que Mudou o Jogo”. O mesmo acontece agora, em “Foxcatcher: Uma História Que Chocou o Mundo” (“Foxcatcher”), que, assim como os outros já citados, é baseado em fatos reais. O trio de protagonistas é, sem dúvida, o principal destaque desta produção que conta sua história de maneira fora do tradicional, o que pode incomodar muita gente por seu ritmo cadenciado e com pouca ação ou reviravoltas.

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Na trama, ambientada nos anos 1980, somos apresentados aos irmãos Mark (Channing Tatum), medalhista olímpico na luta greco-romana e Dave (Mark Ruffalo), seu treinador. Um dia, Mark recebe um convite de John du Pont (Steve Carell), milionário cuja fortuna da família vem da indústria química e fã do esporte, para conhecer sua fazenda (a Foxcatcher do título). Chegando lá, Mark descobre que Du Pont quer criar uma equipe de lutadores visando as Olimpíadas de Seul, em 1988. Encantado com os recursos oferecidos e pela retórica ufanista de Du Pont, o atleta acaba aceitando se tornar seu protegido. Só que, aos poucos, o seu novo amigo vai se revelando cada vez mais estranho, paranoico e manipulador, a ponto de fazê-lo perder a identidade. As coisas não melhoram quando Dave, após vários pedidos, cede e passa a fazer parte do grupo, como técnico. Obcecado pela aprovação de todos, em especial de sua mãe, Jean du Pont (Vanessa Redgrave), John começa a tomar atitudes cada vez mais estranhas que acabam afetando a vida de Mark e Dave de uma maneira inusitada e definitiva.

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Miller decidiu contar “Foxcatcher: Uma História Que Chocou o Mundo” de uma maneira inesperada, onde prefere evidenciar o clima sinistro e desconfortável que surge entre seus protagonistas, já que a impressão que dá é que nada é explicado de forma clara, seja pelos desejos de John du Pont de se tornar um mentor para todos ao seu redor (coisa que ele não é, apesar de todos os seu dinheiro e seus esforços aparentemente inúteis), seja pela necessidade de Mark de ser acolhido, inicialmente por Dave e depois pelo milionário. A escolha do diretor foi arriscada, já que, no mundo atual, tentar uma nova proposta cinematográfica geralmente gera repulsa, seja do público ou da crítica. Mas o cineasta até que se saiu bem, embora enfatize também a relação entre o trio principal, sugerindo inclusive algo homoerótico entre eles. Um bom exemplo disso está na sequência em que du Pont exige que Mark treine com ele em plena madrugada e a luta é filmada como se eles estivessem fazendo sexo, embora, mais uma vez, o diretor não deixe tudo às claras, preferindo levar o espectador à reflexão.

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O que pode desagradar muita gente em relação a “Foxcatcher: Uma História Que Chocou o Mundo” é que, ao escolher conduzir o filme dessa maneira, Miller não consegue criar empatia com o público em relação ao que quer mostrar. O andamento bem lento em alguns momentos e situações na trama que parecem não serem bem esclarecidas (em parte por causa do roteiro de E. Max Freye e Dan Futterman, indicado ao Oscar deste ano) podem causar uma certa irritação, o que prejudica uma maior admiração à obra. Mas, quem conseguir enxergar um pouco mais além, poderá até dizer que teve uma experiência impactante com o filme.

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No entanto, o que realmente salta aos olhos em “Foxcatcher: Uma História Que Chocou o Mundo” é mesmo a entrega dos três atores principais. Steve Carell, mais conhecido por seu lado cômico tanto em filmes como “Todo Poderoso” ou “Agente 86” mostra que também é excelente ao fazer dramas. Debaixo de uma pesada maquiagem (também indicada ao Oscar), Carell impressiona ao fazer seu John du Pont uma figura sinistra e, em alguns momentos, desagradável, com sua arrogância em querer se tornar algo que nunca conseguirá. Uma sequência marcante é quando ele faz um “teatrinho” com seus lutadores para impressionar sua mãe. Já Channing Tatum realmente surpreende e deixa seus detratores de queixo caído e confirma que, bem dirigido, pode render muito mais do que em filmes de ação e comédias fracas. Seu Mark Schultz é uma figura frágil psicologicamente, apesar de toda a sua força física e, certamente, é algo que fica na memória ao fim da sessão. Mark Ruffalo também não fica atrás e realizou mais uma boa composição, com seu jeito de andar como se estivesse lutando mesmo fora do tatame e a maneira com que trata o irmão carinhosamente, numa das cenas mais impactantes da trama. Vale destacar também a expressão facial de Ruffalo quando Dave precisa participar de um documentário sobre du Pont e se sente forçado a dizer algo sobre o milionário em que realmente não acredita. Não por acaso, foi lembrado na lista de indicados ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por sua atuação. O ponto negativo está na apagada participação de Sienna Miller, como a esposa de Dave, já que a atriz entra muda e sai praticamente calada. Um lamentável desperdício.

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No fim das contas, “Foxcatcher: Uma História Que Chocou o Mundo” realmente chama a atenção, especialmente com seu desfecho que pode surpreender para quem não conheceu as questões envolvendo John du Pont, Mark e Dave Schultz. Mas, ainda assim, gera uma certa estranheza para a maneira que o filme foi desenvolvido. Pode até não ser o melhor desta temporada de produções oscarizáveis, porém vale dar uma conferida, nem que seja para ver um ótimo trio de atores em ação.

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