Subgênero cada vez mais raro no cinema brasileiro, o filme de época desperta curiosidade ao fazer um recorte de um período do qual muitos de nós não vivemos, mas desejamos conhecer um pouco melhor, nem que seja a título de comparação com a sociedade atual ou para refletir sobre o que era melhor ou pior antes. Por isso, é extremamente satisfatório quando surge, em meio a produções leves, que se tornam pouco relevantes no fim das contas (a não ser pelo número de espectadores que conquistam), uma obra que foge do convencional no atual cenário cinematográfico nacional. Assim, o filme “Muitos Homens Num Só”, primeiro trabalho em longa-metragem de Mini Kerti merece ser conferido, especialmente pela ótima recreação do Rio de Janeiro do início do século XX quanto pela direção segura e a interessante trilha sonora.

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Inspirada no livro “Memórias de um Rato de Hotel”, do jornalista e cronista João do Rio, a trama acompanha a vida de um criminoso conhecido apenas por Dr. Antônio (Vladimir Brichta), que se tornou famoso por cometer roubos em hotéis frequentados por integrantes da alta sociedade carioca. Sofisticado e muito esperto, ele se utiliza de diversas identidades falsas para conseguir se sair ileso e ninguém consegue realmente identificá-lo, o que dificulta a missão da polícia em prendê-lo.

Um dia, Antônio recebe o pedido de Vellez (César Troncoso), o homem que lhe ensinou tudo o que sabe, para que realize mais um golpe e, com o dinheiro, possa pagar uma dívida. O que ele não contava é que, durante sua missão, ele acabasse se envolvendo com Eva (Alice Braga), uma mulher infeliz com o seu casamento com o empresário Jorge Pereira (Pedro Brício). Os dois embarcam num romance, que pode atrapalhar os planos de Vellez e custar a liberdade de Antônio, perseguido pelo investigador Félix Pacheco (Caio Blat), obcecado em descobrir a sua identidade.

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O principal destaque de “Muitos Homens Num Só” está na ótima direção de arte, assinada por Kiti Duarte, que realizou a reconstituição da época de forma simples mas eficaz, ainda mais que o filme foi feito com um baixo orçamento. Houve todo um cuidado para que os cenários parecessem mesmo como os do período apresentado na história. Além disso, foi interessante mostrar alguns cartões do Rio de Janeiro, como o Pão de Açúcar sem o bondinho, recriados em computação gráfica de maneira discreta. A utilização de locações reais, como a Confeitaria Colombo, no centro carioca, A Assembleia Legislativa e a praia da Urca, também deram um charme à produção e fizeram toda a diferença.

Vale ressaltar também o belíssimo figurino usado pelos atores e os figurantes, criado por Marina Franco, e a trilha sonora de Dado Villa-Lobos. A direção de Mini Kerti mostra que a cineasta, mesmo iniciante em longas, é bastante segura, embora perca um pouco de ritmo em alguns momentos. Assim como o roteiro de Leandro Assis e Nina Crintz, que deixa de lado um pouco a interessante trama policial para favorecer o romance entre os protagonistas, de forma pouco balanceada. Mas nada que seja algo que prejudique a produção.

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O elenco, embora pequeno, consegue em sua maioria realizar bons trabalhos. Vladimir Brichta aproveita para fazer algo diferente de seus papéis na TV e acerta no tom do Dr. Antônio, um homem que se vale de charme e elegância para aplicar seus golpes, mas que guarda uma certa tristeza no coração e que se vê perdido ao descobrir a paixão.

Alice Braga mostra porque faz tanto sucesso no Brasil e no exterior, graças ao seu carisma e talento autênticos, e revela uma boa química com Brichta, além de tornar crível a angústia de sua personagem, que deseja mais do que a vida que leva.

Caio Blat, que poderia aparecer mais em cena, realiza mais uma ótima performance como um Félix Pacheco apaixonado pela ciência e suas aplicações na polícia e obstinado em prender o inteligente larápio. Silvio Guindane, que interpreta Paulo Barreto (o verdadeiro nome de João do Rio), faz uma boa dupla com Blat e coloca um pouco de ironia com o seu personagem. César Troncoso também se destaca como o mentor de Antônio, prestando mais um bom serviço para o cinema nacional. Já Pedro Brício, infelizmente, não está à altura de seus colegas e sua atuação como o conservador e hipócrita Jorge Pereira soa mecânica e artificial.

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Grande vencedor do Cine PE 2014, com 10 prêmios, “Muitos Homens Num Só” é um filme que vale a pena ser conferido pelo grande público e mostra que o cinema brasileiro ainda é capaz de realizar obras que saem do que é imposto pelo mercado. Além disso, mostra que certas coisas que não existem mais ainda podem despertar interesse, como um ladrão sofisticado, mesmo neste mundo caótico em que vivemos.

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