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“Eu e meu Avô Nihonjin” celebra as trocas culturais entre Brasil e Japão

O ano de 2025 marca os 130 anos do Tratado de Amizade entre Brasil e Japão, amizade que sequer uma guerra foi capaz de fazer ruir, embora tenha abalado a relação dos dois países brevemente. É, portanto, momento de olhar para trás neste mais de século de amizade e não somente louvar o que os japoneses trouxeram para nossa cultura, mas também reconhecer como a cultura brasileira influenciou os japoneses que para aqui imigraram. E nada melhor que fazer isso com um filme que é prova de que existe animação de qualidade no cinema brasileiro.

A primeira sequência nos leva até um porto no Japão, de onde está saindo um navio que, dois meses depois, chegaria ao porto de Santos. Mas nossa história começa na década de 1980, quando o garoto Noboru recebe como dever de casa uma pesquisa sobre a história da família. Para conhecê-la, precisa fazer perguntas para seu lacônico avô, um autêntico imigrante japonês que não perdeu o sotaque nem as memórias de toda uma vida pregressa.

O rabugento Inabata então conta sobre como veio do Japão com sua primeira esposa e como se estabeleceu enquanto colono numa fazenda de café chamada Ouro Verde. A perda da esposa é pouco sentida, pois não nos deu tempo de nos afeiçoarmos à personagem, e Inabata já se casa novamente, desta vez com a avó de Noboru.

Ouvindo a narrativa, Noboru descobre a existência de um tio que nunca lhe fora mencionado, Haru. Rebelde desde a infância, ele queria mais que tudo não ser “nihonjin”, ou seja, japonês, e ao invés disso ser simplesmente brasileiro como todos os seus amigos.

Várias facetas da experiência do imigrante são exploradas, como a desconfiança inicial com relação aos “gaijin”, ou seja, todos que não eram japoneses. A exploração desmedida dos colonos é apresentada de maneira didática, assim como o é toda a trajetória da família, comum a tantas famílias de imigrantes japoneses. Outro fato curioso narrado foi que muitos japoneses acreditavam que o Japão havia ganhado a Segunda Guerra Mundial, e quem falasse o contrário, como o fez um jovem Haru, podia ser até ameaçado de morte.

Sendo ambientado nos anos 80, o filme permite uma viagem ao passado dentro de outra viagem, que é o flashback do avô quando chegou ao Brasil. Assim, vemos Noboru e seus amigos Laura e Beto brincando no balanço e no escorregador e também de batalha naval – diversões de tempos mais simples. O que peca é a presença de um computador na escrivaninha de Noboru.

A ambientação nos anos 80 é o que permite a troca entre avô e neto. Calculo que Inabata teria cerca de oitenta anos no tempo “presente” da história, levando em conta ainda que os japoneses são notórios por sua longevidade: calcula-se que há hoje quase 100 mil pessoas com mais de 100 anos no Japão, sendo 88% mulheres.

O filme permite que sejam vislumbradas outras histórias de família que servem como um resumo da formação do povo brasileiro, tudo isso através de breves diálogos de Noboru com seus dois melhores amigos. Laura é neta de portugueses, e faz seu trabalho ouvindo os muitos causos de seu alegre avô lusitano. Beto, por sua vez, é negro e descendente de escravizados, um ponto de sua história familiar que fica obscurecido por a família não falar muito sobre esse “detalhe” do passado.

O filme é baseado no livro vencedor do Jabuti “Nihonjin”, de Oscar Nakasato, adaptado para roteiro por Rita Catunda, sem dúvida parente da diretora e diretora de arte Celia Catunda, e mais conhecida por ser criadora das séries de sucesso “Peixonauta” e “O Show da Luna”. O conjunto da obra de Oscar Oiwa serviu de inspiração para os cenários que são simplesmente majestosos – e em todos eles há mágicos pontos de luz.

Mais do que um filme sobre choque de culturas, “Eu e Meu Avô Nihonjin” é um filme sobre encontro de culturas. Olhar para trás é entender de onde viemos, como e por quê chegamos aqui. É celebrar a amizade e entender a animosidade passageira entre as nações. Se tudo isso puder ser feito através da arte, ao mesmo tempo lúdica e informativa, estamos no lucro.

NOTA 8 de 10

Eu e meu Avô Nihonjin

Eu e meu Avô Nihonjin
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Nota: 8/10
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