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"Eu, Tonya": quando a perspectiva fala por si

Muitos se lembram quando, no longínquo ano de 1994, um escândalo na patinação de gelo ganhou o mundo, e consequentemente o Brasil, dado o seu absurdo: a habilidosa atleta Nancy Kerrigan teve as pernas quebradas por um desconhecido com uma barra de metal. Isso as vésperas das Olimpíadas de Inverno. O caso ganhou ainda mais repercussão quando sua principal rival doméstica, Tonya Harding, foi acusada de mandante do crime. Eu, Tonya, obviamente é uma cinebiografia da acusada, ou de certa forma, do que estava por trás do fato, sob perspectiva da própria.
Com essa história real já bastante absurda, o diretor australiano Craig Gillespie traça essa personalidade sob uma estrutura de mockumentary (falso documentário), com muito olho no olho dos personagens, quebrando a quarta parede. Tonya (Margot Robbie, num trabalho de muita maturidade) tinha uma talento incomum, desde criança, e acompanhada de uma mãe nas raias da tirania (Allison Janney, em performance muito elogiada e premiada, com toda a razão) foi galgando seu espaço, mesmo sem condições financeiras e fugindo do padrão comportamental que a organização do esporte esperava de uma atleta da categoria.

A severa educação materna e o preconceito institucional com sua pessoa, acabaram por fermentar sua personalidade forte e até auto destrutiva, algo potencializado pelo intempestivo relacionamento abusivo com Jeff (Sebastian Stan, sempre bom), relacionamento esse que vai ser a razão dessa tragédia que se abate sobre sua vida e carreira. A linguagem “documental” se revela uma criativa forma de biografá-la sem romantizar seu passado.
O diretor parece estruturar a trama sempre em direção a ponderação. Por mais que o fato extremo em si seja mostrado com apenas um ponto de vista (o dela), o filme não a redime. Muito pelo contrário, a revela até mesmo dentro de um recorte em que as razões para ser o que é são mais ou menos levantadas. E as atrizes (mãe e filha) investem em nuances que dão tamanha credibilidade para suas interpretações que, praticamente, carregam o filme nas costas.

A montagem é precisa e ajuda muito na contextualização da atleta, não apenas no arremedo visual em que a atriz é “colada” em performances de patinação bem profissionais e ousadas. Eu, Tonya se insere naquelas biografias que revelam mais pelo que provocam do passado do que pela idealização dele. A personalidade da protagonista, aliada ao que refletia de seu entorno, diz muito sobre a vida que teve sob os holofotes. E o filme acaba funcionando assim: joga luz sobre o que está em perspectiva. Seja ela verdadeira ou não.
Filme: Eu, Tonya (I, Tonya)
Direção: Craig Gillepsie
Elenco: Margot Robbie, Allison Janey, Sebastian Stan
Gênero: Drama
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Califórnia Filmes
Duração: 2h 00 min
Classificação: 14 anos

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