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Festival do Rio: “Chico – Artista Brasileiro” toca no íntimo do grande astro da MPB

Um dos maiores nomes da MPB ainda vivos, Chico Buarque de Hollanda faz parte da trilha sonora da vida de milhões de brasileiros nas últimas décadas. Compositor de imensa criatividade, Chico tem uma incrível trajetória em sua carreira e foi testemunha ocular de fatos que marcaram a história do país, como a luta pela democracia durante o regime militar nos anos de 1960 e 1970. Além disso, tornou-se um escritor de livros admirado tanto pela crítica quanto pelo público. Com uma história tão rica em acontecimentos, ela tinha que virar filme. E, finalmente, virou, graças ao documentário “Chico – Artista Brasileiro” (Brasil, 2015), que procura mostrar um lado mais particular do artista, que ainda não tinha sido exposto para o grande público. O resultado final é um filme bem envolvente e que consegue até emocionar, embora nem todas as perguntas que os fãs têm são respondidas.

O longa conta com os depoimentos que Chico Buarque dá sobre sua vida e a carreira como cantor, compositor, dramaturgo e autor de best sellers durante 50 de seus 70 anos. Assim, Chico fala sobre seu relacionamento complicado com o pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, o primeiro grande sucesso, “A Banda”, que venceu o Festival de Música Popular Brasileira em 1966 (junto com “Disparada”), o casamento de mais de 30 anos com a atriz Marieta Severo, o período que passou exilado no exterior durante a ditadura, os problemas com a censura em relação às suas letras, a renovação de seu público com o passar do tempo, entre outros assuntos. Além disso, o artista também fala sobre um irmão que nasceu na Alemanha e nunca conheceu. A história o inspirou a escrever um novo livro, chamado “Irmão Alemão”, e o filme mostra alguns trechos da obra, narrados por Marília Pêra, ao mesmo tempo que revela a busca de Chico para saber um pouco mais sobre seu parente desconhecido.

Imagem: Zeca Guimarães

O que salta aos olhos em “Chico – Artista Brasileiro” é o excelente trabalho de pesquisa para obter imagens raras da vida do protagonista, como os programas musicais que participou na Itália enquanto esteve exilado, ou os espetáculos que fez com a participação de Caetano Veloso quando voltou ao Brasil, sempre vigiado pelos militares. O filme trambém resgata os momentos de Chico como ator, onde até interpretou Noel Rosa em “O Mandarim”, de Julio Bressane (1995), além de participações em produções dirigidas por amigos como Hugo Carvana e Cacá Diegues.

Vale destacar também a ótima escolha do diretor Miguel Faria Jr (o mesmo de outro documentário de sucesso, “Vinícius”) em colocar algumas de suas músicas como complemento da narrativa. Assim, temos apresentações do próprio Chico, cantando “Sinhá”, Ney Matogrosso interpretando “As vitrines“, Moyseis Marques, com Mambembe“, Laila Garin, com sua versão de Uma canção desnaturada”, Monica Salmaso canta Mar e lua, o pagodeiro Péricles, que surpreende com “Estação derradeira“, além dos duetos de Adriana Calcanhotto e Mart’nália em Biscate” e a portuguesa Carminho com Milton Nascimento, com “Sobre todas as coisas”. A cantora, aliás, emociona quando canta “Sabiá”, canção composta por Chico e Tom Jobim, que levou uma sonora vaia quando ganhou o III Festival Internacional da Canção em 1968, no lugar de “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, favorita do público. Outro momento a ser lembrado é quando o cantor e compositor acompanha ao violão três dos seus sete netos (Chico Freitas, Clara Buarque e Lia Buarque) na canção “Dueto”, em casa, de uma maneira bem despojada.imagem: Zeca Guimarães

O único porém de “Chico – Artista Brasileiro” é que faltou ao filme alguns depoimentos de pessoas mais relevantes tanto na vida pessoal dele, como a ex-esposa Marieta Severo ou as filhas, quanto na profissional, como os também ídolos e parceiros Caetano Veloso, Gilberto GilToquinho, entre outros. Também faltou alguma pessoa que fizesse algum tipo de contraponto ao cantor, até para não dar a impressão de ser um documentário “chapa branca”, um pecado que é quase cometido pelos seus realizadores. Mas suas qualidades superam essas pequenas falhas, que tornam o filme uma experiência agradável e até mesmo apaixonante, especialmente para os admiradores do protagonista.

Portanto, “Chico – Artista Brasileiro” vale para quem quer conhecer um pouco mais da pessoa que tanto contribuiu para a cultura brasileira nos últimos 50 anos com suas músicas, peças de teatro, livros e outras criações que fazem parte da história da maioria da população do nosso país. Tanto que, se durante a sessão, você se pegar cantarolando alguma canção de Chico Buarque, não estranhe e apenas curta a experiência. Afinal, é ótimo reverenciar uma obra tão boa que atravessa o tempo e não parece envelhecer. Ainda bem!

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