
Quando um ator de cinema decide assumir a cadeira de diretor, principalmente na América Latina, ele tem, em geral, uma dessas três idéias na cabeça: criar um filme em que possa exibir melhor sua capacidade cênica e lhe dê o papel que ele sempre esperou lhe ser oferecido; discutir sobre o que é atuar/ser um artista; ou tocar em questões políticas que estejam ou não em voga. Não é raro que esses filmes pareçam niilistas e banais. O jovem ator uruguaio Daniel Hendler, vencedor do Urso de Prata de melhor ator em 2004 no Festival de Berlim, insere doses destes dois últimos ítens em seu pequeno e quixotesco drama, saindo-se muito bem.
Norberto Apenas Tarde é a história de um homem que parece preso em sua própria realidade alternativa, em que ele pode ajustar todos os acontecimentos no momento em que bem achar conveniente, ou simplesmente varrê-los para debaixo do tapete.
Após perder seu emprego numa empresa onde tinha um alto cargo, Norberto (o excelente Fernando Amaral) começa a trabalhar em uma imobiliária, muito embora ele não possua o perfil de um vendedor de sucesso. Ele mal encara as pessoas, parece sempre desligado, atrasado. Norberto ainda está tentando vender o seu primeiro apartamento e ganhar a sua tão sonhada comissão quando decide contar para sua esposa, aos poucos, que gostaria de deixar seu emprego e trabalhar numa imobiliária, escondendo a difícil situação financeira em que o casal está vivendo no momento, pois já estão devendo dinheiro para quase todos os seus amigos.
Para melhorar seu desempenho no corpo-a-corpo da venda de um imóvel, seu chefe lhe indica fazer um curso de auto-afirmação, algo que lhe dê confiança, postura e um novo look. É a chance que Norberto encontra para iniciar um curso que ele acredita ser similar, o de teatro. Um grupo semi-amador vai encenar A Gaivota, de Tchekov, e Norberto será o tenente aposentado Shamrayev. É ali, durante os ensaios entre pessoas muito mais jovens, onde seus atos não tem grandes consequências na vida real, que o personagem parece encontrar a sua zona de conforto, mesmo que não seja um grande ator. E o que nos resta é ver como ele consegue conciliar seus primeiros passos no teatro com a vida da família e as dificuldades de seu novo emprego.
Norberto Apenas Tarde, na superfície, tem a cara de um daqueles filmes independentes um tanto arrastados e icômodos que inundam o festival Sundance, mas Hendler nunca deixa a bola cair. É um filme que tem bom rítmo, bastante humor e nunca força o espectador à ter raiva ou piedade do protagnista. Norberto não é um personagem de apenas uma dimensão. Quando parece que ele está totalmente fora de controle, percebemos que ele age perante uma lógica totalmente sua e consegue levar sua vida assim, alheio ao que pensam dele e ao que seria convencional, sem ser, no entanto, um personagem exótico. É, na verdade, humano demais em seus erros e contradições. Fosse realizado na Europa ou nos Estados Unidos, me parece que seria um filme confuso e esquecível.
Eu já era um apreciador do trabalho de Daniel Hendler como ator, principalmente em suas parcerias com o diretor argentino Daniel Burman, e Norberto Apenas Tarde só confirma seu grande talento também na direção. O filme faz parte da mostra Foco Argentina, no Festival do Rio 2010, e terá sessões nos horários abaixo:
- QUI (30/9) 13:20 Est Barra Point 2 [BP231]
- SAB (2/10) 17:00 Espaço de Cinema 2 [EC251]
- SAB (2/10) 21:30 Espaço de Cinema 2 [EC253]
- SEG (4/10) 15:10 Estação Ipanema 1 [IP152]
- SEG (4/10) 19:30 Estação Ipanema 1 [IP154]
- TER (5/10) 17:30 Est Vivo Gávea 5 [GV558]








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