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Festival do Rio: "González", além da justa medida

González, do diretor Christian Diaz Pardo, exibido no Foco México, teria tudo para ser um bom filme. E começa bem, mostrando o protagonista, González perdido pela cidade grande entre telefonemas de cobranças de dívidas, ligações da mãe e entrevistas para empregos. Ele tem o aluguel atrasado, assim como as prestações de uma televisão, que, por sinal, está sempre ligada em programas com apresentadoras de vozes estridentes. Os sons por onde González passa são inicialmente um personagem à parte, sejam aqueles oriundos da TV, constantemente ligada, ou de vendedores de bugigangas no transporte coletivo.
González parece não saber o que fazer para conseguir um sustento fixo que amenize as dívidas e as preocupações. Além disso, suas interações pessoais resumem-se às respostas às cobranças e aos pedidos da mãe.
Festival do Rio González, além da justa medida1
Mas finalmente González consegue um emprego no call center de uma igreja protestante, onde Elias (Carlos Bardem) é um exímio e persuasivo pastor. É aí que o filme começa a decair. Não pela temática, que não deixa de ser interessante, mas pela forma como o filme escolhe abordar a derrocada de González e a crítica subjacente à maneira como algumas denominações evangélicas focam na contribuição financeira de seus fiéis desesperados em detrimento da religiosidade pregada. A questão é que já entendemos a cara-de-pau do pastor Elias, já compreendemos as táticas que ele usa para que seus fiéis caiam como patos nas firulas divinatórias, já sacamos seu tipo, mas o diretor insiste em repetitivas e demoradas cenas de pregação religiosa. Algumas são boas, outras engraçadas, mas ficam excessivas, ultrapassam a justa medida. É como se estivéssemos zapeando a televisão às onze e tanta da noite e passássemos um pouquinho nos programas religiosos, só para ver um pouco como é, para logo depois mudar de canal, mas nos obrigassem a permanecer ali infinitamente. De igual modo, em González, o problema é insistir mais do que deve nessas cenas, o que acaba cansando. Ao final das contas, González deixa de ser um personagem a princípio interessante e torcemos para que o filme acabe o quanto antes.

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