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Festival do Rio: "O Outro Lado do Paraíso" e a bela visão idílica do Golpe de 64

Penúltimo filme da mostra competitiva Premiere Brasil do Festival do Rio 2014, O Outro Lado do Paraíso foi uma grata surpresa em meio a seara apresentada até o momento. Confesso que entrei no cinema sem muito entusiasmo, já que o filme anterior do diretor André Ristun, Meu País, não foi por assim dizer um cartão de visitas dos mais marcantes. Entretanto, essa falta de expectativa só reforçou a surpresa do seu (bom) resultado final.
Baseado no livro homônimo do escritor mineiro Luiz Fernando Emediato, o filme conta, de forma ficcional, a história real da transferência de sua família do interior da pequena Bocaiúva para Brasília, no início da década de 60. Nele, o Golpe de 64 é visto sob o olhar de uma família anônima brasileira, em especial de Nando, um menino de 11 anos (Davi Galdeano, excelente) que relata as aventuras do pai, Antônio (Eduardo Moscovis) um brasileiro aventureiro que sonha com a “terra prometida”, a partir de um trecho bíblico do livro de Gênesis. Um dia, resolve ir para Brasília, que está sendo construída, atraído pelas promessas de reformas do governo de João Goulart. Mas logo vem o Golpe de 64 e os sonhos se tornam pesadelos de uma hora para outra.
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Ristun absorve a verve fabular do livro, dada a perspectiva infantil de tempos tão sombrios. E sua direção, tecnicamente impecável, vai impondo uma leveza para além das desventuras que aquela família vai passando. Muito disso se deve ao modo apaixonado com que o personagem de Moscovis é desenvolvido em meio às suas ilusões de prosperidade. E esse intuito é feito de forma tão singela, que mesmo que a discurso em si soe quase piegas, a destreza com que é transposto para a tela, ganha a empatia do espectador. O rigor técnico é visível (até pelo orçamento de mais R$ 7 milhões), desde a fotografia até a trilha sonora, quase uma personagem a parte, dada a competência do multi-instrumentista Patrick De Jongh, com Milton Nascimento arrepiante, inclusive com uma canção inédita feita especialmente para o filme.
O Outro Lado do Paraíso traduz a pluralidade – cada vez mais constante – do cinema nacional. E a competência idílica da produção vinda do Distrito Federal.

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