Existe no marketing uma estratégia que se chama “pé na porta”. Trata-se de “forçar” uma pessoa a atender a uma demanda grande após pedir um favor pequeno, de modo que ela não possa negar. Mas no cinema, o que defino como “pé na porta” é outra coisa: é aquela forma nada sutil de chegar chegando e anunciando a que veio. É assim que começa “Entre Penas e Bicadas”.
O nascimento, na forma da quebra da casca do ovo, de Bico Dourado marca também a morte de seus pais, aves estranhamente voando num avião. Talvez porque eles não eram aves comuns: eram o prefeito e a primeira-dama da Cidade Aviária. O avião cai sem deixar sobreviventes, mas Bico Dourado vai parar em Poleiro Bicópolis, onde passa a ser criado por uma galinha. Conforme cresce, ele não se conforma em apenas correr como as galinhas do vilarejo: ele quer voar, afinal, é uma águia.

Na ausência do pai de Bico Dourado, Asa Prateada, a Cidade Aviária passou a ser governada pelo tio de nosso pequeno herói, Bate-Asas. A cidade é ultramoderna, e as aves passeiam em meio aos arranha-céus adentro de veículos motorizados voadores. A guarda de escoteiros, formada por águias, cuida da segurança e é para lá que Bico Dourado parte junto de sua irmã adotiva, a galinha Catraca.
Não chegamos nem à metade do filme e Bico Dourado já descobriu quem são seus pais e teve calorosa acolhida da parte de seu tio. A suposta rivalidade entre Bico Dourado e seu primo postiço, a águia Guy, também dura pouco. Então como o filme se sustenta por mais 45 minutos? Simples: inventando uma subtrama sobre recursos energéticos não-renováveis e sua extração predatória em Poleiro Bicópolis.
Bate-Asas é um vilão complexo e muito interessante. Exalava vilania desde o primeiro segundo em tela, com seu corpo e porte imponentes. Mas somos levados a questionar se ele é realmente um vilão quando recebe e trata de maneira benevolente o sobrinho, que reconhece como seu herdeiro. Sua outra face só é vista mais ao final, com a exploração das minas de pedras vermelhas, e ainda em seu discurso ele garante gostar de Bico Dourado, mas ter feito o que fez por necessidade, “por um bem maior”. A descoberta de outra das vilanias de Bate-Asas só vem a acrescentar em seu currículo do mal.

“Entre Penas e Bicadas” estreou na China em 2021 e só agora vem sendo exibido no Ocidente; no caso dos EUA, chegou diretamente no streaming, enquanto no Brasil vem para os cinemas. O site da produtora do filme já divulga que trabalham numa sequência, de olho no mercado mundial que explodiu com “Ne Zha 2”, hoje a maior bilheteria de cinema de animação na História.
Apesar do vilão complexo, “Entre Penas e Bicadas” agradará às crianças e entrega justamente o que prometeu: uma aventura emocionante não apenas sobre a busca de sua origem, mas também sobre a proteção daqueles que, por acaso ou circunstância, alguém aprendeu a amar.
NOTA 7 de 10









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