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“O Dia do Atentado” conta tragédia real de forma hipnótica e eficiente

Desde que aconteceu os ataques às Torres Gêmeas no dia 11 de setembro de 2001, as pessoas sempre são perguntadas sobre onde estavam e o que estavam fazendo no momento em que o World Trade Center era destruído com o choque de dois aviões, com diversas vítimas fatais. Pouco mais de dez anos depois, os Estados Unidos eram novamente palco de mais um atentado terrorista, desta vez em Boston, durante o evento esportivo mais conhecido (mundialmente até) da cidade, causando imensa comoção ao redor do planeta.

Você, que está lendo este texto, se lembra do que estava fazendo ou onde estava quando essa nova tragédia ocorreu? Talvez não, mas pode ser que se lembre ao assistir a “O Dia do Atentado” (“Patriots Day”, 2016), que reconta os acontecimentos deste episódio de maneira bastante eficaz, misturando drama com suspense na medida certa, escapando da armadilha de ser melodramático ou ufanista demais e resultando num cinema que, se não chega a ser original, pelo menos cumpre muito bem o seu papel.

A trama é centrada no sargento da polícia Tommy Saunders (Mark Wahlberg), que no dia 15 de abril de 2013 fez parte da segurança da Maratona de Boston, realizada todos os anos para celebrar o Dia do Patriota. Tudo corria bem até que duas bombas caseiras detonadas perto da linha de chegada pelos irmãos Tamerlan Tsarnaev (Thelmo Melikdze) e Dzokhar Tsarnaev (Alex Wolff) mataram quatro pessoas e ferem dezenas. Após o impacto inicial, Tommy ajuda a socorrer as vítimas e faz o possível para colaborar com as investigações do ataque, ao lado do agente especial Richard Deslauriers (Kevin Bacon) e do comissário de polícia Ed Davis (John Goodman), que lideram uma força especial, que conta com policiais como o sargento Jeffrey Pugliese (JK Simmons), para capturar os terroristas antes que eles cometam outra tragédia.

Um dos méritos de “O Dia do Atentado” está na direção de Peter Berg, que se mostra muito mais maduro do que em outros filmes que dirigiu como o decepcionante “Hancock” e a bomba “Battleship – A Batalha dos Mares”. O cineasta e também ator tem obtido bons resultados ao comandar produções que falam claramente com o orgulho que os americanos sentem de seus “heróis comuns”, como os soldados de “O Grande Herói” (2013) ou os trabalhadores de uma plataforma de petróleo de “Horizonte Profundo: Desastre no Golfo” (2016), coincidentemente ambos baseados em fatos reais e estrelados por Mark Wahlberg.

Aqui não é diferente, já que Berg procura enfatizar os dramas de seus personagens para deixá-los mais delineados e com cara de “gente como a gente”. Embora isso possa incomodar quem não curte esse sentimento exacerbado que parece ocorrer com mais fervor nos Estados Unidos, o diretor se vale de uma montagem que enfatiza que praticamente tudo o que acontece na tela é verdadeiro e, por isso, não dá para ter aquela sensação de estarmos diante de algo tão ufanista e surreal como vemos nos filmes das franquias “Rambo” ou “Independence Day”. Além disso, o diretor comprova sua competência ao recriar com bastante tensão o momento em que as bombas explodem ou quando ocorre a caça aos irmãos Tsarnaeev, embora haja uma sequência tão pirotécnica que fica difícil de acreditar que tudo ocorreu exatamente como mostrado no filme.

Outra qualidade do filme está no roteiro, assinado por Berg, Matt Cook e Joshua Zetumer, que não deixa de apontar as falhas cometidas pelas autoridades durante o decorrer da investigação do caso e da caçada aos Tsarnaev. Num filme com um tema desses, é comum os autores perderem a mão e darem a entender que os americanos nunca erram e são infinitamente superiores a outros povos. Felizmente, aqui isso não acontece e ajuda a dar mais veracidade à história que está sendo contada.

Chama a atenção também a escolha de Berg em usar diversas tomadas aéreas de Boston, montando uma espécie de mapa da cidade onde ocorrem os acontecimentos antes, durante e depois do atentado. Isso ajuda a fazer o público a entender como funciona a geografia da cidade, além de produzir um efeito estético interessante. Vale destacar também a edição, que mistura cenas reais da época com outras recriadas de uma maneira que fica difícil distinguir o que é fictício e o que não é. Além disso, é bem marcante a trilha sonora criada pelo Nine Inch Nail Trent Reznor e Atticus Ross (em seu primeiro trabalho num filme que não foi dirigido por David Fincher), que ajuda a dar um clima tenso e, ao mesmo tempo, melancólico à trama.

À frente do ótimo elenco, Mark Wahlberg comprova que está se especializando em fazer protagonistas heroicos, porém “pés no chão”. Sua atuação, embora não seja sensacional, é honesta e faz com que o espectador compre as questões que seu personagem apresenta, ainda mais que Tommy Sauders é um dos únicos principais que não é uma pessoa que realmente existe, mas sim uma junção de vários policiais. Kevin Bacon e John Goodman mostram suas habituais competências com boas performances. Já JK Simmons e Michelle Monaghan, que interpreta Carol, esposa de Tommy, não têm muito o que fazer no filme.

Os pouco conhecidos Thelmo Melikdze e Alex Wolff seguram bem a responsabilidade de fazer os irmãos Tsarnaev. Quem surpreende, no entanto, é Melissa Benoist, que interpreta Katherine Russell, esposa de Tamerlan. A atriz, conhecida por protagonizar a série de TV “Supergirl” e por sua participação em “Whiplash – Em Busca da Perfeição”, revela um bom talento dramático, especialmente numa cena de interrogatório difícil e bastante intensa.

Embora tenha um ritmo irregular, que deixa o filme com a sensação de ser um pouco mais longo do que é, “O Dia do Atentado” ganha pontos por ser, além de uma obra que se preocupou em ser uma boa recriação sobre o ataque na Maratona de Boston, realmente cria verdadeira comoção ao mostrar a luta e o espírito de solidariedade das pessoas da cidade contra o terrorismo, sem parecer patriota demais, o que comprometeria as intenções da obra. Além disso, o filme prende a atenção com um bom suspense, mesmo não chegando ao nível alcançado por outras produções baseadas em fatos reais, como “Voo United 93” (2006) de Paul Greengrass. Mas vale a pena ser visto, especialmente para refrescar a memória de quem não se lembra exatamente do que estava fazendo naquele 15 de abril de 2013.

Filme: “O Dia do Atentado” (Patriots Day)
Direção: Peter Berg
Elenco: Mark Wahlberg, John Goodman, Kevin Bacon, J.K. Simmons, Michelle Monaghan, Melissa Benoist
Gênero: Drama/Suspense
País: EUA
Ano de produção: 2016
Distribuidora: Paris Filmes
Duração: 2h 13 min
Classificação: 14 anos

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