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Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu desafia os limites entre documentário e ficção científica

A fronteira entre ficção e documentário é turva desde que Robert J. Flaherty perdeu seus negativos originais de Nanook, o Esquimó e decidiu refilmar tudo com os “personagens” replicando, de forma não natural, seus hábitos para a câmera. Isso aconteceu em 1922. Quase um século depois, um cineasta brasileiro bagunça ainda mais este limite ao flertar com a ficção científica – algo que Flaherty nunca fez – sem que este flerte necessariamente traga profundidade à narrativa no filme Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu.

Bruno Risas, o diretor, e sua família – o pai, Julius Cezar, a mãe, Viviane, a irmã, Izabela, a avó, Geny, e alguns cachorros – voltam a morar na casa que pertenceu ao avô de Bruno. A crise e o desemprego do pai obrigam a família a fazer este retorno. Tempos depois, Bruno vai morar com a namorada, mas volta com frequência à casa da família para filmar alguns minutos por dia da rotina deles.

Um dia, Viviane, a mãe, é abduzida. Embora haja um sinal de que algo estranho está para acontecer aos 25 minutos de projeção, é só com mais de uma hora e meia de filme que a abdução acontece. Na ausência da mãe, a família tem de continuar com sua rotina como podem, assumindo novas tarefas e tentando seguir em frente.

Há vários momentos familiares em Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu, e não estou falando no sentido de pertencimento a uma família: são familiares porque são reconhecíveis por qualquer um de nós. Como quando a mãe, assim que o filho chega em casa, lhe oferece comida, mesmo ele garantindo que já havia almoçado – ela fica a um milissegundo de dizer “mas você está tão magrinho!” Ou quando a discussão leve entre mãe e filha termina com um “pergunta pro seu pai” e o bom humor se instaura novamente.

No momento de maior ternura do filme, a mãe e a avó, esta com sintomas iniciais de demência, de maneira carinhosa trocam os óculos entre si, ambas preocupadas com a capacidade visual uma da outra. É o conflito entre carinho familiar e desentendimento intergeracional – exacerbado aqui pela doença, pelos afazeres da mãe atarefada, pelo peso de saber que estão sendo gravadas – que todos nós já experimentamos alguma vez na vida.

O filme faz refletir sobre as diferenças entre resiliência, aceitação e anulação. Em confidência para o filho e para a câmera, Viviane diz que sempre foi muito maleável, sempre se adaptou às situações, e começa a se perguntar se ela se adaptou demais, se deveria ser mais firme, se está se anulando ao ser maleável. É um dilema feminino, um dilema profundamente humano.

Trabalhar com atores não profissionais, ou mesmo membros da família do diretor, também não é novidade: a estrela mirim de alguns dos primeiros filmes dos irmãos Lumière era Andrée, filha de Auguste Lumière. Esta escolha traz vantagens – como a naturalidade das cenas e diálogos, pois os “atores” já têm uma relação de cumplicidade com o diretor – e desvantagens. Há uma cena em que Viviane, a mãe-atriz, se desentende com Bruno, o filho-diretor, quando ele fica bravo por ela ter tido um ataque de riso logo no momento em que houve silêncio total para a gravação. Ela o lembra de que o está ajudando, inclusive deixando suas obrigações de lado para participar do filme dele.

Ao filmar um pouco a cada dia desde 2010, Bruno antecipa de alguma maneira a moda do “1 Second Everyday”, o diário em vídeo que você já deve ter visto nas redes sociais. Como Bruno frisa, ele filmou uma década de mudanças, tanto no contexto familiar quanto no nacional. Entretanto, e é uma escolha ousada por se tratar de um documentário, parece não haver muita intervenção do contexto nacional no familiar além da crise que deixa o pai desempregado. Não digo que Bruno deveria ter usado imagens de arquivo dos acontecimentos da década, mas a impressão que fica é que os personagens são pouco suscetíveis à influência dos acontecimentos políticos.

Ao mesmo tempo, não pude deixar de me perguntar se, caso a família tenha dado a ele carta branca para fazer o filme, nunca houve desentendimento na edição ou desagrado com o produto final, porque o retrato da vida real familiar nem sempre é agradável, mas em geral é verdadeiro.

O grande problema de Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu é a demora para que as coisas estranhas influenciem na narrativa, e o espectador que já está imerso no formato documentário se assombra com a mudança repentina. Se a abdução tivesse acontecido na primeira metade do filme, teria sido possível lidar com uma miríade de temas. Um dos temas possíveis é a saudade, sentimento doloroso que acomete todos, mas que recebe nome específico somente na língua portuguesa. Também seria possível abordar as fases do luto, a tentativa de voltar à vida normal sem ter um ente querido por perto ou a busca pela resiliência.

Compreendo, sim, que quase nada acontece de repente, sem anúncio, e que a construção e o ensaio são tão importantes para a concretização de um fato quanto o fato em si. Mas as consequência também são fundamentais, e sobra pouco tempo no filme para mostrar as consequências do desaparecimento de Viviane, esta personagem que, por seu destaque, nos é tão simpática.

Deve haver, na volta da mãe, algum tipo de lição. Talvez de que nada muda, ou de que tudo muda, mas a gente não percebe e se adapta. O que é fácil de perceber é que a carreira de Bruno Risas é promissora, que Viviane, apesar de não ser atriz profissional, tem carisma, e que algumas mudanças no timing da narrativa de Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu fariam deste ousado experimento uma obra imperdível na história do cinema brasileiro.

Nota: Regular (2.5 de 5)

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