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Resenha: O Homem ao Lado

Ultimamente, filmes argentinos têm provado seu grande potencial para o mundo todo. A sétima arte da terra dos hermanos tem qualidades e características indiscutíveis.  Suas produções cinematográficas conseguem, através de objetos e personagens, dizer muito sem balbuciar sequer uma palavra que confirme essas ideias. E tal jeito de fazer cinema vem sendo bem quisto pelas academias do mundo, como foi o caso de O Segredo de Seus Olhos.

“O Homem ao Lado”, dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat, conta a comum história de um vizinho que decide construir uma janela que dá exatamente na casa do outro. A casa onde o filme se passa fica na cidade de La Plata, foi desenhada por um famoso arquiteto suíço chamado Le Corbusier e é a única obra dele presente nas Américas. Moderna por fora e por dentro, a casa é cheia de rampas e vidros, mas ao mesmo tempo, não parece ser habitada por nada ou ninguém.

Mas por que falar da casa? Bem, lá mora Leonardo (Rafael Spregelburd), designer que ficou famoso por ter desenhado uma cadeira não convencional, com sua esposa Anne, que dá aulas de Yoga no último andar da casa e a filha do casal Lola, que passa o filme todo com seus fones de ouvido, sem dizer uma só palavra. A casa e os personagens confirmam a impressão de isolamento total. Objetos e personagens que falam sem dizer, lembra?

A crítica que os diretores de “O Homem ao Lado” embutem no filme tem a mira voltada para a classe média argentina – e que facilmente se aplicaria a que temos no Brasil e, certamente, a de outros países também. A classe social que preza pela cultura, pelo conhecimento e por soluções práticas e “democráticas”, mas que se revelam genuínos representantes de uma extrema direita, de uma meritocracia que impulsiona desigualdades e privilégios. Preferem o conforto dentro de uma grande bolha social, quentinha, espaçosa, feliz, apesar de ilusória.

Logo que Leonardo aparece no filme, já é possível desvendar traços de sua personalidade. A primeira imagem do designer é a foto de seu website, uma pose que transpassa um misto de prepotência, arrogância com a fragilidade característica de quem vive de aparências.

Em uma manhã, ele acorda com um tremendo barulho que invade seu quarto. Os pedreiros de Victor (Daniel Araóz) – o vizinho – estavam abrindo um buraco para a construção de uma janela que ia dar exatamente na casa do designer. Victor explica que precisava de um pouco de sol que vinha daquela direção para clarear o ambiente. Leonardo enlouquece e diz ao novo vizinho que ele não pode construir a janela, que seria contra a lei, seria invasão de privacidade.

A situação não é nem um pouco improvável. Aliás, recentemente, vimos o Fantástico exibir uma história parecida no quadro de conciliação. A partir deste simples elemento – uma briga entre vizinhos – o filme se desenrola abusando de crítica social e sarcasmo. “O Homem ao Lado” tem todo o timbre encantador, divertido e sério das comédias negras argentinas.

Victor é um brutamonte de coração mole, escrachado no jeito de ser, de falar e de se vestir. Esse choque de personalidades, de trejeitos, uma espécie de choque cultural, introduz o desconhecido na bolha de Leonardo, que se mostra firme diante da mulher, mas morre de medo de Victor, que, por sua vez, se diverte com os exageros de preocupação e com o estilo de vida do designer.

Até as posições das câmeras ao filmar os dois personagens principais destacam suas diferenças. Enquanto Victor é mais imponente (filmado em closes), Leonardo aparece muitas vezes de cabeça baixa. Em uma cena na cozinha seu rosto fica escondido atrás do armário, enquanto segura um frango na mão para temperá-lo.

É interessante como ficamos com a sensação de que, ao mesmo tempo em que Victor se diverte à custa da família classe média alta, ele também se envolve, realmente se apega a eles. Constantemente, quando Leonardo e sua esposa estão ausentes, a filha do casal vai à janela para observar o show que o vizinho faz com seus dedos vestindo saias e botas estilo cowboy, dançando em um cenário com bananas, feito em uma caixa de papelão. São os únicos momentos e a única forma de interação de Lola em todo o filme.

Victor oferece presentes para se conciliar com o vizinho, como um pote de búfalo feito e caçado por ele mesmo (a receita, curiosamente, é ditada por Victor junto aos créditos do filme). Outro inusitado presente é uma escultura de armas coladas umas às outras e pintadas de vermelho, também feita por Victor. E então vem a explicação da obra: é uma espécie de homenagem ao nascimento, trata-se da representação de uma vagina! Sim, a cena é hilária!

Este novo vizinho é a verdadeira personificação do tapa na cara que Duprat e Cohn querem dar na burguesia argentina. E aos poucos o filme vai mostrando a plasticidade desta elite intelectual. Como em uma cena em que Leonardo analisa as batidas de uma música instrumental com um amigo, estão dizendo quão revolucionárias essas marcações fora do ritmo da música são. Mas descobrem que as batidas sem ritmo vêm da janela de Victor.

Decide-se, enfim, que a janela não será construída da forma como Victor vinha fazendo. No entanto, o buraco feito na parede não chega a ser tampado durante o filme. Seria um aviso à classe média? Um buraco aberto na bolha de conforto?

Lançamento em 20 de maio

[xrr rating=4.5/5]

Título Original: El Hombre de al Lado

Direção: Mariano Cohn e Gastón Duprat

Duração: 100 min

País: Argentina

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Publicado por FlordaSerra

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