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Resenha: The Girlfriend Experience

Sabe quando você assiste um filme e não sabe exatamente como passar para o público tudo aquilo que se poderia retirar deste? Pois bem, The Girlfriend Experience, a meu ver, é o melhor que um cineasta poderia falar sobre o mês de outubro de 2008, véspera das eleições americanas que colocaram Obama na Casa Branca e o ápice da crise mundial com tudo e todos sofrendo de alguma forma. E no meio disso tudo, temos Christine (a atriz pornô Sasha Grey), uma acompanhante que usa o nome falso de Chelsea com seus clientes enquanto tenta conciliar sua vida particular, desde o namorado professor de academia a sua relação com aqueles que a conhecem.

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Steven Soderbergh, diretor de Traffic, Erin Brockovich e Onze Homens e Um Segredo (e continuações), mostra-nos a vida de apenas uma entre centenas, senão milhares de acompanhantes que trabalham diariamente em Nova Iorque, mas não de uma forma ordinária. O filme, editado pelo próprio diretor, tem uma das melhores edições que eu vi nos últimos anos, fazendo uma espécie de mistura entre o que acontece no final do mês e no começo, escrevendo uma espécie de rascunho de um todo que iremos ver em questão de minutos. Não é algo inovador, mas o modo como a câmera para a uma dada distância em certas cenas, como evita mostrar o rosto de alguns dos interlocutores de Chelsea, meio que, como se estivessemos ouvindo o testemunho dela através deles. Em verdade, o que assistimos toda vez em que Chelsea está em cena, é uma narrativa em primeira pessoa da vida dela mesma, mesmo em pontos em que não há narração e que seus clientes falam de como a vida anda complicada devido a crise.

A história em si, se fosse contada por uma pessoa qualquer, provavelmente perderia e muito a graça, porém, Soderbergh nos mostra o rosto de Sasha Grey constantemente e esta, constantemente, evita expressar emoções, meio que vivendo um transe constante, como uma prostituta com mais um de seus clientes, não entediada e querendo que acabe logo, mas vivendo um cotidiano, como se cada um daqueles homens fosse a mesma pessoa e eles fizessem com ela a mesma coisa todos os dias. Ela tem o olhar da namorada que quer terminar o namoro, mas não sabe como.

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O rosto da atriz é uma espécie de filtro. Quando vemos os closes em seu rosto, fica explícito que aquela mulher chamada Chelsea é apenas uma roupa usada que ela veste todos os dias com a riqueza que um artesão manufatura uma estátua. Isso tudo, segundo o próprio diretor, é obra da jovem atriz que ganhou total liberdade para improvisar tanto na criação das personagens quanto nas falas com seus clientes, que, propositalmente, eram não atores, para que a cena soasse o mais real possível.

A vida de Christine, que tenta conciliar seu namoro com os seus clientes parece estar desmoronando aos poucos enquanto esta se dedica dia após dia, mais e mais a sua profissão, querendo ser a melhor naquilo que faz, que no caso, é meramente ser uma atriz interpretando a namorada que aqueles homens não tem. Saindo com eles, vivendo um dia com ele e terminando o dia na cama, ou não. Não nos é mostrado em instante algum qualquer cena de sexo ou simulação, apenas vemos a atriz nua em um ponto do filme que dura segundos e o resto, apenas somos sinalizados de que pode ou não ter havido o sexo entre as partes. O que importa ao espectador não é se ela fez sexo, mas sim, o caráter sexual daquele encontro e como isso vai afetar ela e sua vida pessoal.

Ao mesmo tempo, seu namorado vai tentando arrumar sua própria vida e vemos que, apesar dos trabalhos serem diferentes, ambos são iguais em tentar vender uma imagem a uma outra pessoa. Ele, personal trainer, vende a imagem que o cliente está bem e que treinando ele vai ficar melhor, ela, a acompanhante, vive para elogiar seus “namorados”. No final, ambos, e aqui há mais uma crítica social, e todos nós, somos falsos e vendidos, acabando por querer mais e mais, deixando de lado coisas importantes como aqueles que nos amam.

O filme é curto (77 min) e sinceramente, me arrebatou pela fantástica edição, cenas muito bem arquitetadas e acima de tudo, a bela atuação de Sasha Grey que, apesar de ter o estigma de ser atriz pornô, é uma fantástica atriz e tem tudo para continar fazendo filmes de mercado mais amplo que os pornôs. Não quis explicar demais da história aqui porque fatalmente eu poderia soltar um spoiler não requisitado, mesmo que não afete o filme. Eu recomendo assistir o filme totalmente sem preconceitos e pronto para qualquer coisa, pois é isso que eu vi na tela, um filme em que se chega totalmente frio e termina pensando na vida e como as coisas são.

J.R. Dib

3 opinaram!

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  1. Como não dizer que já conhecia sasha grey? 😛

    Enfim quando fiquei sabendo que ela faria um filme diferente do gênero que ela fez seu sucesso, fiquei estupefato.

    Estou mais ainda de saber que ela deu conta do recado, agora é ver o filme.

  2. Eu realmente achei genial a idéia de Soderbergh de buscar uma atriz que muitos conhecem “na cama”, para mostrar também o outro lado da história.

    Ele conseguiu a experiência perfeita de imersão sem precisar expor a atriz no seu filme.

    gênio!
    °°°

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