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Um relato íntimo e pessoal de “Frances Ha”, um dos melhores filmes da década

Nutro uma relação passional com New York, cidade que nunca estive, mas sempre alimentei um fascínio gerido muito pelos anos e anos assistindo a filmes americanos clássicos e bobagens que construíam em mim uma espécie de memória afetiva geográfica. O que sempre me impressionou é como uma cidade, até mesmo dentro de uma superficialidade imagética, pode ter uma força espacial maior que um país, afinal, NY não são os Estados Unidos da América. Até o seu desglamour me interessa. A NY underground e a não contida nos cartões postais muitas vezes estabelece em si uma controvérsia até mais interessante que a própria cidade em si. Para além desse contexto e justificando a reflexão, encontramos a obra-prima Frances Ha, filme do vigoroso diretor americano Noah Baumbach (superando o badalado A Lula e a Baleia) que parte da busca por mimetizar um retrato de uma geração sem se auto imbuir de uma demarcação discursiva. Acompanhamos Frances, dentro de suas irresistíveis idiossincrasias, numa constante oscilação entre identificação e distanciamento que unifica expectativa, ingenuidade, frustração, otimismo, inadequação e conflitos, sensações tão caras a essa juventude tão pulverizada na relação entre meio e indivíduo.

Frances Ha é uma dessas jovens que, após terminar a faculdade, aos 27 anos, parece ignorar as exigências de uma vida adulta e se atrapalha ao equilibrar sonhos e problemas financeiros. O refúgio emocional é a relação com a melhor amiga e colega de quarto Sophie (Mickey Sumner), que a deixa na mão para ir morar em seu bairro dos sonhos, Tribeca — um local que Frances não tem condições de bancar. Precisando responder por si sozinha, ela passa a buscar caminhos alternativos, além de voltar atrás: seja para passar o fim de ano na casa dos pais, na Califórnia, seja para voltar ao campus onde estudou, não mais como estudante, mas fazendo um bico em eventos da instituição. E assim segue pelos dias, com uma série de encontros e desencontros, que envolvem viagens para Paris, convivência com pessoas agradáveis e outras que não possuem nada em comum com ela.

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Noah faz um filme que defende sua espontaneidade pela delicadeza, seu naturalismo pela organicidade e sua verborragia por sua pertinência. Situar esse universo numa NY contrastada pela fotografia em preto e branco, resulta numa poética irresistível, assim com a protagonista Greta Gerwig (também co-autora do roteiro, com o diretor, seu namorado) que capta à sua verdade toda a complexidade do que chamarei aqui de “carisma indie”. Frances Ha tinha tudo para cair no clichê de sua pretensão, seja como discurso, seja como cinema. Mas o diretor, por estar mais interessado na expectativa, deixa que seu filme fale sobre rumos, e a melancolia implícita em sua áurea cool reflete até o pragmatismo de uma cidade como NY: onde a grandeza se constrói de vazios sedutores e barulhentos. E é nessa busca que a juventude se molda. Frances passa o filme vivendo a desventura de moldes e rumos. Impossível não se identificar.

Impossível não se apaixonar. Trata-se de um dos melhores e mais bem elaborados filmes que já assisti. Afinal, quem não teria suas razões para sair saltitante pela vida ao som de David Bowie? IMPERDÍVEL!!!   [xrr rating=5/5]

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