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“Uma Vida Oculta” traz um pouco daquilo que os fãs de Malick estavam sentindo falta

O filme, baseado em uma história real, expõe o embate moral de um camponês durante a segunda guerra mundial

Terrence Malick é um diretor conhecido por alguns trejeitos e temáticas que vêm se repetindo ao longo de toda sua carreira.

Já ficou bastante determinado que sua cinematografia contará sempre com lentes grande angulares que abarcarão todo o cenário, relativizando a força e a proporção da presença do homem na tela em meio a arquiteturas espetaculosas e a paisagens exuberantes. Nos últimos 20 anos, as lentes se tornaram ainda mais abertas, distorcendo as figuras humanas ao se aproximarem e, de modo quase oposto, mas ainda servindo ao propósito da visão do cineasta, permitindo uma super aproximação a pequenos detalhes, tornando-se macro quando assim for desejado.

Já ficou também estabelecido que haverá muitos momentos de silêncio, de pausas reflexivas nas quais as personagens parecem apenas contemplar o ambiente no qual estão inseridos, convidando o espectador também à apenas observar, quase numa forma de imersão e sensorialização. Muitos destes momentos de silêncio são interações entre as personagens e a natureza, acompanhadas em seus movimentos por uma câmera solta e curiosa, que se torna um olhar quase subjetivo, em breves momentos mágicos que nos convidam a olhar o mundo com encantamento.

Já no campo temático, Malick está sempre abordando grandes questões filosóficas tais como a morte e a vida, o amor, a guerra, a origem do mundo, a fé, as utopias, a pureza… Temas que tangenciam a condição humana desde que o mundo é mundo.

Outras características, já mais corriqueiras, que costumam se repetir em sua obra são: a longa duração de seus filmes, numa média de duas horas e meia a três horas; a trilha sonora instrumental clássica, assim como a voz em off, enquanto elementos quase onipresentes e permanentes, pontuando o clima e os pensamentos mais impalpáveis; e a representação daquilo que é puro e divino através da natureza, lembrando muito o pensamento do poeta português Fernando Pessoa.

De certo modo, sinto como se Malick sempre tenha tentado usar o cinema e a forma fílmica pra conseguir sublinhar o intangível, para expressar o sublime. Sua linguagem foi se desenvolvendo ao redor de suas necessidades e buscas filosóficas e de seus questionamentos internos. E por isso, também, sua obra, até os anos 2000, de filmes escassos, com longos intervalos de um para outro, era tratada pelo público quase de modo sagrado. Assistir um filme de Terrence Malick era uma experiência, um evento único.

Entretanto, nos últimos anos, desde o lançamento de, na minha modesta opinião, seu último grande filme, “Árvore da Vida”, em 2011, o diretor já lançou mais três, todos parecendo um remix uns dos outros.

“Amor Pleno”, de 2012, tinha sido o último filme dele que eu havia assistido em sua completude e foi muito difícil chegar ao final. Nele, Malick usa duas narrativas paralelas para falar sobre a complexidade do amor humano, em meio à mundanidade deste sentimento, da traição e do desejo, e do desespero de um padre que não consegue mais acreditar, colocando em relevo as contradições entre o amor mortal/romântico e o amor divino, entre a fé e o egoísmo latente.

Admito que só consegui assistir trechos de “De Canção em Canção” e “Cavaleiro de Copas”, mas ambos seguem o mesmo estilo, extremamente repetitivo e giram em torno de intercambiamentos amorosos num ambiente moderno e a busca por algo verdadeiro em meio a um contexto de supérfluos. Eu, particularmente, já estou cansada disso.

Aquilo que antes era interessante e original por seu constante (des)equilíbrio entre narrativo e abstrato acabou por se desequilibrar, e o formato digital permitiu ao diretor explorar notas sobre um mesmo tema, sem o mesmo comprometimento necessário anteriormente, gerando uma verborragia de sua parte.

Me parece que, de mais a mais, sobretudo em sua trilogia mais recente, ele quer dissolver o “eu”, quer nos falar do homem enquanto resultado de seu habitat, imerso naquilo que o entorna. As protagonistas deixam de ser representativos de uma individualidade, e passam a ser meros representantes arquétipos daquilo que ele quer representar, armaduras que irão transitar entre situações e cenários, transmitindo as emoções desejadas.

O roteiro, as falas e a narrativa enquanto trama, enquanto uma história que vai se desenvolvendo a partir de uma sequência de conflitos, ações e reações, e de um crescendo de expectativas que culminarão em um clímax e uma resolução, estão em segundo plano. Sempre estiveram, na verdade. O que prevalece é um estado permanente quase meditativo.

Existe um tema geral e um caminho a percorrer no campo do pensamento e das emoções, mas a trajetória em si é indefinida, determinada apenas ao longo das filmagens e das interações dos atores uns com os outros e com o ambiente.

Infelizmente o que resta são: a plasticidade visual, falas pretensamente profundas que não se manifestam, uma dança constante entre o movimento dos atores e da câmera e uma colagem de lapsos erráticos de memória e impressões. A poesia que ele tanto gostaria de alcançar acaba esbarrando numa estética que já parece mais uma fórmula do que uma investigação genuína.

Eu poderia ficar aqui horas analisando a obra recente de Malick, mas vamos entrar mais diretamente no filme em vigor: Uma Vida Oculta.

Neste seu novo longa, diferente dos últimos três, “Amor Pleno”, “De Canção em Canção” e “Cavaleiro de Copas”, que se passam em um ambiente atual e moderno e são muito focados em questões românticas, num fluxo contínuo de movimento que parece querer emular a não cronologia e a confusão de nossa corrente de pensamento e de nossa memória anárquica, “Uma Vida Oculta” consegue trazer um pouco mais da profundidade e do aspecto quase sacramental do começo de sua obra, retomando também um pouco do equilíbrio entre narração e abstrato.

O longa traz a história verdadeira do camponês austríaco Franz Jägerstätter, que diante de um dilema moral, se recusa a trair suas crenças e seus princípios quando requisitado a apoiar a causa nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Seja por discordar dos valores da guerra ou dos métodos utilizados pelo alemães, ou ainda, por não se reconhecer nos sentimentos nacionalistas, Franz não consegue aceitar ter que mentir apenas para não ser punido.

Dessa vez, a temática do filme e a riqueza visual dos cenários permitiram o retorno à profundidade que estava faltando ao diretor. Todos os elementos mencionados estão lá, mas aqui, o tempo prolongado das cenas, a contemplação da natureza e a beleza encontrada nas interações banais do dia a dia e com sua família, fundamentam o escopo desse profundo dilema enfrentado por nosso protagonista e nos revelam tudo aquilo do qual ele terá que abrir mão caso escolha seguir sua fé, ou seja, a lei moral em detrimento à lei dos homens. De certa forma, a trama lembra um pouco a escolha que Joana D’Arc teve que fazer.

As reflexões aqui são muito importantes em tempos atuais, nos quais estamos vivendo um retorno do pensamento extremista e de governos de direita radicais. O ódio, a polarização das opiniões e o nacionalismo estão cada vez mais presentes em nossos cenários políticos e em nossas vidas. Sendo assim, achei um filme relevante, que pode gerar discussões interessantes.

Enquanto, por um lado, “Uma Vida Oculta” foi um alívio, com sua trama mais complexa e sua base mais sólida, por outro, o ranço das experiências mais recentes de sua obra e a duração extra longa do filme acabaram por me fazer não gostar tanto assim. Sinto que tudo que ele diz em 3 horas poderia ter sido dito em 2 e pouca, o que teria tornado a experiência mais fluida e prazerosa. E isto me incomoda ainda mais especificamente por se tratar de uma história que o diretor quer que seja conhecida, e que eu quero que seja assistida e debatida. O ritmo extremamente lento e repetitivo faz com que “Uma Vida Oculta” se torne hermético, um filme de nicho, feito para os admiradores de Malick ou os poucos interessados em filmes cult. E isso, particularmente, me parece revelar um conflito de interesses e uma forte contradição do diretor.

Resumidamente, “Uma Vida Oculta” é um filme visualmente estonteante que levanta questões importantes em tempos sombrios e que dá alento aos fãs do diretor. E, apesar de ter críticas a ele, acho que vale a pena ser visto.

 

Cotação: Bom (3 estrelas de 5)

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3 / 5 Crítico
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