“A arte é como uma prostituta, ela vai onde o dinheiro está”. “O mercado [da arte] é como um mar cheio de tubarões que não param de se mexer”. São máximas como estas que saem da boca de Antoinette, para interlocutores diferentes, tecendo comentários jocosos mas por vezes certeiros sobre o mundo das artes. O cinema está cheio de filmes sobre o mercado das artes – do laureado em Cannes “The Square – A Arte da Discórdia” (2017) ao terrir “Velvet Buzzsaw” (2019) – mas faltava um tempero brasileiro, faltava falar sobre como o mercado da arte é no Brasil. E isso quase acontece em “Vermelho Monet” pois, apesar de ter elenco e equipe brasileiros, o filme ainda se entrega ao eurocentrismo ao escolher ambientar sua história na Europa.
Johannes (Chico Diaz) é um pintor singular, mas não pelas obras que pinta. Ele é singular porque sofre de acromatopsia, ou seja, tem deficiência de células oculares chamadas cones, o que significa que deixou de ver as cores e agora enxerga tudo em preto e branco. As cores só existem em sua memória: por exemplo, ele se lembra de que a cor dos cabelos da mulher amada era vermelho monet. Essa mulher é Adele (Gracinda Nave), hoje presa a uma cadeira de rodas, com movimentos limitadíssimos.
Johannes é obcecado por duas coisas: tintas vermelhas e mulheres ruivas. Um dia, passando por um café, tem o vislumbre do rosto de Florence Lizz (Samantha Heck Müller), atriz brasileira que está em Portugal para fazer um filme no qual viverá a poetisa Florbela Espanca. Pouco antes de começar os ensaios, numa festa ela conhece a galerista e marchand Antoinette (Maria Fernanda Cândido), e as duas começam um relacionamento. Antoinette e Johannes são velhos conhecidos, pois no passado ele já falsificou quadros a mando dela, tendo passado anos na cadeia por causa desta contravenção.

Como falsificador, Johannes é taxado de “genial” e surge um interesse por uma obra autoral dele. É assim que Florence, em meio a ensaios caóticos para seu filme, se transforma em moeda de troca: Antoinette impele a jovem a visitar o pintor em seu ateliê e posar para ele. E Florence vai, acreditando que ficará com a pintura, mas o plano de Antoinette é vendê-la por várias dezenas de milhões.
Serve como combustível para reflexões a conversa de Florence e Antoinette numa festa, quando falam sobre como tantas pessoas não dão a mínima para a vida e obra de tantos artistas, mas lucram quando estes artistas morrem. Outras provocações sobre o valor da arte são feitas, como pode ser percebido nas frases que abrem este texto, bem como na indagação “quanto vale o amor original?”. Afinal, foram muitos os que pintaram seus amores e hoje estes amores recebem um preço, em geral altíssimo, nos leilões.
Florbela Espanca (1894-1930) foi uma poetisa portuguesa. Sua curta vida está desde cedo atrelada ao cinema, pois seu pai foi, entre outras atividades, exibidor de filmes, sendo inclusive um dos introdutores do vitascópio de Thomas Edison em Portugal. Florbela começou a escrever ainda criança e foi uma das primeiras mulheres do país a frequentar um Liceu, localizado em Évora, e mais tarde matriculou-se no curso de Direito, que não chegou a concluir. Além de poesias, ela escreveu contos, cartas, colaborou com revistas e traduziu romances. Ao longo de “Vermelho Monet”, diversas poesias são declamadas por Florence e o processo de entrar na personagem, apesar de difícil, se mostra vital para que Florence siga seu propósito de atuar em terra estrangeira.

Versatilidade, teu nome é Halder Gomes. O roteirista, produtor e diretor de “Vermelho Monet” também é o homem por trás de uma saga de sucesso no cinema e na televisão: Cine Holliúdy. Mais conhecido por suas comédias, Halder aproveita este filme, que pretende ser o primeiro de uma trilogia, para fazer transbordar seu amor pela pintura, conforme declara:
“O filme transborda da vontade de pôr na tela o que mais me fascina: pintar, ler sobre arte e ver pinturas. Viajo pra visitar museus e galerias incessantemente e passo grande parte do meu tempo livre pintando ou desenhando. Nessas andanças sempre me deparo com pinturas que aguçam a curiosidade de saber quem e o que está além do alcance dos olhos. Para isso, viajo pra lugares pra entender o que certos pintores viram e o que os fizeram pintar daquela forma. Já fui três vezes a Delft, Países Baixos, para decifrar o olhar, luz e paleta de Vermeer.”

Na trilha sonora há espaço para muita música clássica e uma melodia que não nos deixa esquecer que a trama se passa em Portugal. Na parte visual, destaca-se uma festa, bem no meio do filme, em que todas as pessoas estão vestidas como pintores e pinturas famosos. Aqui merecem destaque os trabalhos premiados da fotógrafa Carina Sanginitto e da diretora de arte Juliana Ribeiro.
O filme é uma co-produção, e há diálogos em português, inglês e francês. São feitos muitos paralelos entre o filme que Florence fará e sua realidade, em especial seu relacionamento com Antoinette. Com objetivo de conferir profundidade à trama, estes momentos parecem ter enfadado o espectador, pois prolongam o filme até sua duração exagerada de duas horas e vinte minutos.
Com um ar de filme noir – ao menos com a mesma obsessão de “Um Corpo que Cai” (1958) – “Vermelho Monet” é ambicioso, talvez até em demasia, mas cria curiosidade para a provável trilogia que com ele se inicia. Aguardemos os próximos passos de Halder Gomes.









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