A série Cine Holliúdy exalta a vocação do brasileiro de contar histórias | Críticas | Revista Ambrosia
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A série Cine Holliúdy exalta a vocação do brasileiro de contar histórias

A canção de abertura nos convida a resolver este dilema: qual é a diferença da TV para o cinema? Para Francisgleydisson (Edmilson Filho), é a diferença entre a prosperidade e a ruína. Francisgleydisson, ou Francis, é o “cinemista” de Pitombas, ou seja, o dono do único cinema da fictícia cidade cearense. E quando o prefeito da cidade compra uma televisão e a coloca na praça, o movimento no cinema cai vertiginosamente. Francis não se abate: depois de sacudir a poeira, ele decide se reinventar e fazer seus próprios filmes, falados em “cearensês”, para exibir no Cine Holliúdy e trazer de volta o público.

Além de tentar reconquistar o público do cinema, com a ajuda de seu fiel escudeiro Munízio (Haroldo Guimarães), Francis também tentará conquistar o coração de Marylin (Letícia Colin), enteada do prefeito, que à primeira vista parece muito chateada com a nova rotina na pequena cidade. Além de musa, Francis oferecerá a Marilyn o posto de protagonista de seus esdrúxulos filmes, dignos de um Ed Wood do sertão.

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O elenco “joiado” da série Cine Holliúdy

Não há dúvidas de que Matheus Nachtergaele e Heloísa Périssé, separados, são ótimos na comédia. Juntos como o prefeito Olegário e sua esposa, Maria do Socorro, estão excelentes. Outro casal de destaque são Lindoso (Carri Costa) e Belinha (Solange Teixeira), donos de um armazém/boteco ao lado do cinema – e Lindoso é também adversário político do prefeito Olegário.

Um destaque pra lá de positivo dentro do excelente elenco é Gustavo Falcão como Seu Jujuba, o assessor do prefeito Olegário. Assim como outros braços-direitos da ficção, como Dirceu Borboleta de O Bem-Amado e Gary Walsh, assistente da vice-presidente Selina Meyer em Veep, Seu Jujuba é por vezes ineficaz, mas sempre fiel. Uma das melhores partes da série é vê-lo fazendo seus trejeitos em segundo plano.

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Influências da série Cine Holliúdy

Ao longo do tempo, a “saga” de Cine Holliúdy viu uma evolução narrativa imensa. No curta-metragem original, “O Astista contra o Cabra do Mal”, de 2004, Francisgleydisson precisa apenas consertar uma emergência, entretendo a plateia quando o projetor de seu cinema quebra. O primeiro longa-metragem de “Cine Holliúdy”, de 2013, conta como Francis estabeleceu-se com sua família e seu empreendimento na cidade de Pacatuba justo quando a TV ameaçava a vida dos filmes na tela grande. O segundo e bem mais divertido filme, “Cine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral” (2019), mostra como Francis faz seu próprio filme de ficção científica com os moradores locais para inaugurar o Cine Holliúdy Drive-In. No roteiro deste, alertas para como a política e a religião, quando só interessadas em dinheiro, são inimigas da cultura.

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Cine Holliúdy chegou a ser chamada por um usuário do Twitter de “neochanchada” – e de fato vemos uma conexão entre a série e os filmes inocentes estrelados por Ankito e Oscarito lá nos anos 50, só faltando os números musicais para a equivalência ser completa. Entretanto, é de outra obra que a série bebe: “Bye Bye Brasil” (1980), que traz uma trupe mambembe levando seus truques pelas cidadezinhas do Brasil – de preferência as intocadas pela televisão. Os filmes exibidos por Francis no início da série, todos feitos há mais de 20 anos, passam a perder espaço para a TV. Para resgatar seu público, é preciso apostar na brasilidade.

Muitos gêneros em um

Ao se propor a fazer seus próprios filmes, Francis busca inspiração nos filmes que já fazem sucesso com o público e assim produz películas de ficção científica, drama, romance, terror, um épico bíblico e até um filme de kung fu – premissa que pôde ser executada muito bem porque o ator Edmilson Filho foi tricampeão de taekwondo e já mostrou suas habilidades de luta em “O Shaolin do Sertão” (2018), que fez com Halder Gomes, também diretor da série.

Não foi em todos os episódios, entretanto, que Cine Holliúdy cumpriu a promessa de ser uma ode ao cinema. Alguns tiveram tramas bem simples, inclusive o sétimo apelou para a manjada história do padrasto que tenta casar a mocinha com um jovem afeminado. Sim, a série se passa nos anos 70, mas roteiristas e espectadores vivem em 2019, e está na hora de aposentar esse tipo de narrativa cômica. Além disso, por restrição de tempo, em geral os conflitos são resolvidos às pressas, com os mais diversos deus ex machina.

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Em tempos de polarização extrema, Cine Holliúdy resgata as características que os brasileiros têm de melhor, entre elas o gosto por contar histórias – presente, por exemplo, no causo do mineiro – e o “jeitinho brasileiro” de sempre sair de uma situação difícil. Francis está aqui para mostrar que o brasileiro nunca se “aperreia”.

No primeiro filme, Francisgleydisson diz que “enquanto houver vida, haverá cinema”. A ótima audiência da série Cine Holliúdy foi suficiente para o sinal verde para a segunda temporada. Esperamos mais temporadas e mais filmes cheios da “fuleiragem” de Francis. Vida longa a Cine Holliúdy!

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Publicação Letícia Magalhães