Sarahysha por Laura Eder
Crédito: Laura Eder
LançamentosMúsica

Você sabe o que é uma partitura corporal?

Antes de uma música ganhar melodia, harmonia ou letra, ela pode surgir como uma sensação no peito, uma alteração na respiração, um impulso de movimento ou uma imagem percebida pelo corpo. É a partir dessa escuta física que a cantora, compositora e performer brasileira Sarahysha desenvolve o conceito de “partitura corporal”.

Em seu novo projeto, Spiritual Biatch! – Corpo, Memória e Resiliência, a artista propõe uma forma de criação na qual o corpo não apenas interpreta a música: ele participa de sua composição. “Eu escuto os sons por dentro e, depois, começo a esculpir essas ondas sonoras com a voz, o movimento e os instrumentos. A música não começa necessariamente no papel. Muitas vezes, ela começa no corpo”, explica Sarahysha.

Radicada no Benin, na África Ocidental, a artista transforma essa pesquisa em uma experiência que reúne afro-jazz, improvisação, performance, ritmos ligados às culturas vodùn, psicodelia africana diaspórica e matrizes afro-brasileiras.

A proposta desloca a ideia tradicional de partitura. Em vez de registrar apenas notas, pausas e compassos, a “partitura corporal” considera elementos como respiração, tensão muscular, gesto, ritmo interno, energia, deslocamento e memória. O resultado é um trabalho no qual som e movimento não aparecem como linguagens separadas. A voz, a dança, os instrumentos e a presença cênica formam uma mesma estrutura de criação.

Quando o corpo compõe

Na música ocidental, a partitura costuma funcionar como um sistema de registro e orientação para a execução de uma obra. No processo desenvolvido por Sarahysha, o corpo também se torna um espaço de escrita e leitura musical.

Uma mudança na respiração pode indicar uma pausa. Um movimento repetido pode criar um pulso. Uma sensação física pode se transformar em timbre, frase vocal ou dinâmica instrumental. Esse procedimento é chamado pela artista de “música manifesta”: primeiro, a música aparece como percepção corporal; depois, é organizada em som.

“A composição pode surgir de uma imagem, de um sonho, de um movimento ou de algo que percebo fisicamente. Eu escuto o que o corpo está dizendo antes de tentar encaixar aquilo em uma forma musical”, afirma.

A pesquisa se aproxima de tradições nas quais a música é transmitida não apenas por registros escritos, mas também pela oralidade, pela observação, pela repetição, pelo gesto e pela convivência. No palco, cada apresentação preserva espaço para o improviso. A obra não é reproduzida de maneira completamente fixa, porque a relação entre o corpo, os músicos, o ambiente e o público também interfere no resultado.

O corpo guarda memórias?

A “partitura corporal” também parte de uma pergunta central: o corpo pode guardar experiências, símbolos e memórias que nem sempre conseguimos expressar verbalmente? Em Spiritual Biatch!, Sarahysha investiga como deslocamentos, afetos, espiritualidades, traumas e referências culturais podem permanecer inscritos na forma como uma pessoa respira, se movimenta, ocupa um espaço e produz som.

A ancestralidade, nesse contexto, não é tratada como uma referência distante ou uma tentativa de reconstrução do passado. Ela aparece como uma presença que pode ser percebida e transformada por meio da criação contemporânea. “O corpo guarda histórias, mas também guarda possibilidades. A minha pesquisa não é sobre reproduzir algo antigo. É sobre entender o que essas memórias podem gerar agora”, diz a artista.

Essa abordagem aproxima o projeto de discussões presentes na música, na dança, no teatro, na performance e nos estudos sobre corpo e memória.

Uma experiência entre música e performance

Em Spiritual Biatch!, percussões, baixo, bateria, piano, teclado, trompete e voz constroem uma paisagem sonora marcada pelo afro-jazz, pelo spiritual jazz, pela psicodelia africana e por pulsações afro-brasileiras.

A instrumentação, porém, não funciona isoladamente. Os músicos respondem a estímulos corporais, vocais e cênicos, criando uma composição que se desenvolve também pela escuta e pela presença. “Não quero que o movimento seja apenas uma ilustração da música. Ele faz parte da própria estrutura. Às vezes, um gesto conduz o som. Em outros momentos, o som transforma o corpo”, explica Sarahysha.

A proposta é criar uma experiência sensorial na qual o público não acompanhe apenas uma sequência de canções, mas perceba a construção de uma linguagem entre voz, corpo, ritmo, silêncio e improvisação.

Sarahysha prefere não limitar o trabalho a um único gênero musical. Para ela, o projeto se aproxima de uma música de reconexão. “Não necessariamente uma reconexão religiosa. Pode ser uma reconexão com o próprio corpo, com uma memória, com uma emoção ou com alguma coisa que a rotina nos fez deixar de perceber”, afirma.

Uma pesquisa transformada pela vivência no Benin

Nascida em São Paulo, Sarahysha começou a cantar na infância, em corais de igreja. Mais tarde, passou pela cena independente e pelos circuitos underground de jazz da capital paulista.

Sua trajetória inclui experiências no Caribe, na França e na Ilha da Reunião, território francês no Oceano Índico. Atualmente, a artista vive no Benin, onde aprofundou o contato com músicos, ritmos, danças e formas de transmissão cultural baseadas na oralidade e na presença corporal.

A convivência com artistas beninenses ampliou sua percepção sobre a relação entre música e movimento. “No Benin, entendi com ainda mais força que o conhecimento pode ser transmitido pela pele, pela voz, pelo gesto e pela convivência. A música não está apenas naquilo que conseguimos escrever”, afirma.

Essa experiência não aparece no projeto como uma tentativa de reproduzir tradições beninenses. Ela transforma a maneira como Sarahysha organiza sua própria linguagem artística, colocando em diálogo referências do jazz, da música afro-brasileira, da performance e das culturas da África Ocidental.

Do conceito artístico ao laboratório de criação

A pesquisa sobre partitura corporal também orienta o trabalho do SB LAB – Creative and Cultural Production Studio, laboratório fundado por Sarahysha para o desenvolvimento de projetos de música, dança e performance entre a África Ocidental e o Brasil. O espaço busca aproximar artistas de diferentes linguagens e criar processos nos quais corpo, memória, oralidade e experimentação façam parte da produção artística.

Com Spiritual Biatch! – Corpo, Memória e Resiliência, Sarahysha amplia essa investigação e apresenta ao público uma pergunta que atravessa toda a obra: o que podemos escutar quando deixamos de perceber o corpo apenas como instrumento e passamos a reconhecê-lo como partitura?

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