Literatura

Transversais do Tempo, de Tailor Diniz

Para quem já leu os divertidos romances policiais de Tailor Diniz, entrar em contato com os sete contos de Transversais do Tempo vai ser motivo de estranhamento. A narração leve e descontraída do autor gaúcho dá lugar à textos densos com uma carga extra de tragédia. Em 2007, recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura de melhor livro de contos e também foi premiado pela Associação Gaúcha de Escritores. E não é por menos. Apesar da grande diferença entres seus romances, Transversais do Tempo, em edição da Bertrand Brasil, merece igualmente ser lido.

Cada texto do livro possui ritmo diferente, ligados por um ar sombrio e tenso, envolvido constantemente com o perigo da morte. As personagens de Tailor são vítimas e assassinos, pessoas perturbadas com o cotidiano que extrapolam os limites definidos pelas leis para buscar algum conforto. Não há crime a ser descoberto, apenas a ser feito. Narrações de casos trágicos que podem ter acontecido há muito tempo ou que não passam de previsões ou suposições. O tempo não é respeitado, e as personagens viajam por ele como que em uma ficção científica.

O autor cumpre com a promessa do livro, e dá aos leitores o que o subtítulo sugere – Sete histórias para todas as horas, principalmente as ruins. O conto Pelo Avesso merece ser destacado por fazer uma desconstrução temporal, começando o relato pelo fim. Tailor Diniz surpreende nesse conto por não usar a técnica do “de trás para frente” de forma clichê, e mantém a expectativa para o final – ou início – da história sobre a morte solitária de um casal idoso no campo.

Em alguns contos, como Rolex de outro chama a atenção de bandido, Tailor apresenta de forma nítida os anseios do funcionário estressado com seu chefe e emprego, passando ao leitor todo o ódio que ele sente pelo que faz, sem exigir muito para decifrar seus problemas. Já em textos como O Inominável, o autor não revela a natureza de sua personagem narradora, que constantemente se esquece do que vê.  Ele não da idéia exata do que acontece com o casal e seu jovem empregado. Esse conto é o que mais exige atenção, não só pelas informações escondidas, mas também pelo seu estilo, um grande parágrafo sem pausas e respiros.

O mais longo da antologia, Entre Espelhos e Sombras, é aquele que mais abusa dos avanços e retrocessos no tempo. A história é de um homem que quase recebe um tiro e recebe visitas de uma jovem que lhe lê contos, enquanto viaja entre o passado e o futuro. Nele, o homem relembra sua pré-adolescência ao falar do desejo que sentia pela irmã de seu amigo, e vê a misteriosa garota lhe dando atenção e prevendo que logo aquele que tentou matá-lo realizará tal ato. Entre essas idas e vindas, Tailor transcreve as histórias que essa garota lhe conta, retiradas de um caderno que sempre carrega para as visitas. Pouco a pouco, detalhes sobre o homem são revelados, o que prende a atenção ao texto, apesar dos constantes cortes de raciocínio da personagem.

Transversais do Tempo é, como disse no início, um livro que causa estranhamento àqueles que já conhecem obras mais leves do autor. Então há um alerta para que não se pegue o livro pensando se divertir como nas outras histórias de Tailor Diniz. O efeito será justamente o contrário. Porém, a leitura vale o tempo dedicado a decifrar os dramas das personagens que vivem no limite entre a vida e a morte, a sanidade e a loucura. Um bom livro para quem está cansado de finais felizes.

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