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A palavra como protesto: uma conversa com Yan Rego, autor de “Era uma vez um mês seis”

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Em “Era uma vez um mês seis”, o premiado autor carioca Yan Rego mergulha nas manifestações de junho de 2013, explorando a violência política e a questão racial de forma ficcional. Publicado pela  Editora Paraquedas, o livro destaca-se pela abordagem crítica e pela experimentação linguística ao apresentar vozes pouco ouvidas, seja o discurso tendencioso de um apresentador de TV no conto “A Voz de Deus” ou os atravessamentos pessoais no intrigante “V de viu”. Sem adotar uma postura panfletária, Yan convida os leitores a refletirem sobre política e raça por meio de uma narrativa intensa e singular.

Yan é escritor, professor e roteirista nascido em 1993 no Rio de Janeiro e traz à literatura sua inquietação sobre as consequências das manifestações. Formado em Ciências Sociais pela USP, o autor combina a oralidade com sarcasmo e humor autodepreciativo em seu estilo de escrita. Reconhecido pelo livro “Agá”, segundo lugar no Prêmio Biblioteca Digital 2021, destaca-se pela originalidade ao explorar temas como violência política, não-lugar social e racial, e um amanhã que se revela menor. Sua obra reflete a busca por vozes esquecidas e ridicularizadas, desafiando o leitor a questionar respostas prontas e idealizações sobre política e raça.

O que motivou a escrita do livro? Como foi o processo?

A vontade de revisitar minhas experiências nas manifestações de junho de 2013 contra o aumento da passagem; e também destilar um pouco de rancor, tanto dessas experiências quanto de certas análises sobre as consequências daquele período na política do país. Procurei misturar autoficção com algumas experimentações de formato e explorar pontos de vista diferentes, como: o de uma criança que odeia vinagre; o de um patriota que ama o Brasil; o de um apresentador de jornalismo policial que odeia baderna; e o de um olho que não sabe o que sente por uma bala de borracha.

Se você pudesse resumir os temas centrais do livro, como chegou neles?

A violência política dentro e fora das organizações; o não-lugar social e racial; e um amanhã que é menor.

Junho de 2013 gerou um fenômeno que impactou a política nacional, e sobre ele foram feitas diversas análises. Recorri à ficção porque me parece que há vozes que não foram levadas a sério como deveriam, mas, principalmente, porque há vozes que não foram ridicularizadas e esculachadas como deveriam. E porque falar de política e raça com respostas prontas e idealizadas me parece uma grande sacanagem intelectual.

Algum livro influenciou diretamente “Era uma vez um mês seis”?

As influências principais foram Homem de fevereiro ou março, de Rubem Fonseca; O sol na cabeça, de Geovani Martins; Malagueta, Perus e Bacanaço e Abraçado ao meu rancor, de João Antônio; Obras completas (e outros contos), de Augusto Monterroso; O Exército de Cavalaria, de Isaac Babel; e Dormitório, de Yoko Ogawa.

Mas de forma geral, além destes, Gabriel García Márquez, Lima Barreto, Maria Carolina de Jesus, Mano Brown, Pepetela, Yu Hua e Han Kan também são grandes influências para a minha escrita.

Como você começou a escrever?

Escrevi meus primeiros contos aos dezesseis anos, depois de conhecer livros de Rubem Fonseca e desconfiar que a rua, a fala da rua e as pessoas da rua também dão boa literatura.

Como você definiria seu estilo de escrita?

Levo a oralidade muito a sério, assim como sua diferença na fala e na escrita. Misturo isso com sarcasmo, humor autodepreciativo e preocupação com o ritmo, para deixar os incômodos mais no conteúdo.

Como é o seu processo de escrita? Tem algum ritual ou meta?

Faço um pouco de pesquisa em livros e álbuns com estilos/temas semelhantes com o que estou escrevendo, mas a maior parte busco na internet e andando na rua. Anoto muitas coisas que escuto. Reviso meus textos em voz alta; paro quando cabem na boca, cutucam a cabeça e não sobram no ouvido.

Na hora de escrever em si, enrolo durante cinco horas e escrevo durante uma hora e meia por dia (com muitas aspas). Tento escrever ao menos nove mil toques por semana.

Quais são os seus projetos atuais de escrita? O que vem por aí?

Estou trabalhando em uma prosa longa, talvez novela, talvez romance, sobre um escritor pardinho e perdidão no mercado editorial brasileiro. Pretendo publicá-la em 2024. Também estudo a possibilidade de publicar uma coletânea de contos produzidos entre 2022 e 2023.

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