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“Allegro ma non troppo”, fala do ato de se estar por perto da viagem do romance: o narrado

A vida seria? Uma pista aqui no sentido do deslocamento e da investigação. Por que uma estrada nada mais é do que um evento (viagem) que já foi e não há mais pistas, sua semântica é o movimento; o deslocamento. Se pensarmos que por se deslocar há que sentir a acepção de não se sentir bem em um lugar, uma região, uma família. E talvez há em seres que ficam à margem dos afetos de outrem; de laços com outro uma vontade de seguir uma quilometragem desconhecida.

Há dentro do arcabouço narrativo do romance da jornalista e escritora brasiliense Paulliny Gualberto Tort, “Allegro ma non troppo”, editado pela Oito e meio, esta dupla hélice de voo. Como se o corpo quando em estado (dessa) lentidão, buscasse a dupla acepção do desloca-se. Uma família é descrita e iniciada na narrativa após o enterro do pai da família do narrador. O filho primogênito sai em viagem e não volta. O filho narrador após uma separação da namorada, resolve sair em viagem à procura de João que parece que se movimentou pela cidade de Alto Paraíso no cerrado Goiano.

Há duas interessantes formas de olhar estes dois irmãos: enquanto um, João, está omitido da narração apenas sabemos dele pela relação especular do narrador que fala muito sobre ele enquanto o procura. Mas é através de Daniel, narrador, que vemos sua inaptidão com a própria vida, sua inconstância com seu gosto para com a música. A escritora, Paulliny, modula muito bem esta duas formas de irmandade.

allegroSentimos como o olhar de dois homens que se constroem através de fissuras na composição familiar podem ter um deslocamento tão diverso. Um se perdendo para se achar em algo ou lugar, distante. Talvez aqui pesemos a figura do narrador de qualquer livro como precisando estar colado à sua ação?

O narrador talvez seja um doente que precisa da contaminação do que se narra, daquela sujeira que mancha o local. Se muito pensarmos em Daniel à procura do irmão em Alto Paraiso, quem foi visto no retrovisor pela estrada? Em imagens tão doídas. Talvez João esteja bem com sua alma alterna. Mas Daniel fez a dupla função do deslocar-se. Tropos de estar alegre, mas nem tanto.

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Publicado por Fernando Andrade

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