Literatura

Azar do Personagem, de Reginaldo Pujol Filho

É impossível se livrar do autor. Quando se é personagem, não adianta querer mudar o seu destino: ele vai ser o que o autor quiser. E se o autor for sacana, daquele tipo que gosta de rir da desgraça alheia, você, personagem, pode ter certeza que não vai ter um bom final. Duvidas? Leia Azar do Personagem e você vai ver. Quer dizer, isso se o seu autor deixar você ler.

O livro de Reginaldo Pujol Filho, publicado pela Não Editora, tem vários desses exemplos. Cada conto tem uma personagem, uma história distinta, mas parece que todas fazem parte de uma coisa muito maior. E fazem mesmo, pois, por serem do mesmo autor, estão estritamente ligadas. Como também pelos seus finais pouco felizes. Com um humor divino, Reginaldo cria narrativas envolventes e inusitadas que fazem os leitores simpatizarem mais com ele, escritor, do que com suas criações.

O autor tem um jeito bem especial de narrar. Boa parte de seus contos misturam um assunto corriqueiro com uma abordagem totalmente diferente dele. Como em “Confronto”, onde um narrador de futebol empresta seu talento para narrar uma batida de carro. E também em “Rascunho de Deus”, com a relação homem/mulher e suas intrigas apresentadas em versículos, como se fosse uma bíblia. E até Ele é preso ao autor.

Prova maior de que é impossível fugir de seu “destino”, ainda mais quando se é personagem de Reginaldo, está em “Vanderlei”. A peça de xadrez com inclinações para a igualdade entre os componentes do jogo não consegue se libertar nem no conto, agindo sozinha, muito menos auxiliada por outras personagens.

Reginaldo criou histórias fantásticas, mostrando que sua criatividade vai além do esperado. O último conto traz de volta todas as personagens tentando, em um último suspiro, se liberar do autor, organizando uma rebelião para tentar mudar a sua sorte. Mas eu já disse, é impossível. Quando o autor é Reginaldo, o azar sempre será do personagem. Enquanto o leitor sai com sorte por ter lido um livro tão bom.

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