EntrevistasLiteratura

Desvendando ‘Papel Amassado’: uma conversa com Taís Fagundes

Presença, pertencimento e afeto geralmente são temas presentes em obras voltadas para o público adulto. Porém, Taís Fagundes decidiu abordar-los na obra infanto-juvenil “Papel Amassado” (Editora Labrador, 32 págs.,, com uma linguagem adaptada a todos os públicos e incluindo ilustrações de Ana Cardia. O livro, produzido em meio às enchentes no Rio Grande do Sul e quando a casa de Taís ficou submersa por três semanas, traz ensinamentos sobre o resgate de identidade e sobre a autoconsciência, também conduzindo os leitores a se permitirem viver seus sentimentos e emoções, assim pertencendo ao mundo na sua totalidade.

Taís Fagundes é gaúcha, nascida em Porto Alegre e residente de Canoas. Ela se autodefine como “artista das palavras”. Além de escrever, Taís trabalha como secretária executiva trilíngue e, há mais de 15 anos, protagoniza caminhos de ensinamento, corporativos e artísticos. Ela também toca o movimento homônimo ao livro, que  busca a defesa da acessibilidade cultural, herança cultural, preservação da identidade, da memória e da cultura. Sua mensagem impulsiona um cotidiano simples e promove um resgate autoral e afetivo à luz da sabedoria popular.

Confira abaixo a entrevista com a autora:

O que te motivou a escrever o “Papel Amassado”? Por que abordar temas relacionados à autoconsciência nesse momento?

Após a maternidade, resgatei minha bagagem cultural de uma forma onde a voz interna não se calava mais. Acredito que estamos em um momento da humanidade onde reconhecer os nossos amassados, seja a base para uma vida menos ansiosa e mais feliz. É esta necessidade que tenho de gritar ao mundo: é possível! Basta olhar para dentro. Mas fato é que, com nossas humanidades, nos conectamos com nós mesmos, com nossa história, e com os outros. Consciência e autoconhecimento para enxergar a estrada da vida e toda abundância que nos pertence.

Você mencionou que a maternidade resgatou sua bagagem cultural. Pode nos contar mais sobre como isso influenciou sua escrita?

Quando eu pensei no mundo em que eu quero deixar ao meu filho Augusto, tive a resposta do meu coração. Preciso dizer, relatar e conduzir guianças que levem outros humanos a se encontrarem na estrada da vida. O livro representa liberdade, pois quando nos conhecemos e reconhecemos, passamos a conectar passado, presente e futuro, e a viver de forma desperta.

Quais são as principais mensagens e reflexões que podem ser apreendidas no livro? Que movimento você espera gerar nos leitores?

Reconhecer a si mesma, os seus amassados, e ter uma vida desperta. Com presença no agora. E isso é possível por meio do real entendimento de quem se é. Por isso, é importante olhar para trás, para sua história, e conectá-la ao seu presente.

O livro deixa como extensão o exercício dos 7 afetos, na qual facilita a compreensão da experiência. De certa forma, a história não acaba quando se termina de ler. Ela é um ponto de partida para você reconhecer seus amassados e contar as suas próprias histórias.

Falando em inspirações, como se deu seu contato com a literatura? Em que momento ele aconteceu?

Bebo da fonte da arte desde o berço. Meu pai, Luiz, é um exímio contador de histórias acerca do mundo. Conhece história, geografia e humanidades com domínio pleno. Ele me fazia conectar com diversos povos, sem eu sair da sala de casa, devido ao seu conhecimento. Um homem cujo serviço foi braçal a vida toda (pedreiro), mas a sabedoria popular e cultural o habita. Papai tem 69 anos e continua me contando histórias. Minha mãe, Adalia, lia diariamente os livros emprestados da biblioteca. O dinheiro era escasso, mas a vontade era imensa. Atualmente, ela tem 68 anos e é secretária escolar aposentada do governo do estado do RS. Com ela, vivi o ambiente de educação a vida toda, o que me permitiu ter acesso a livro: enquanto eu esperava seu turno de trabalho acabar, eu ficava na biblioteca lendo histórias e observando as ilustrações; e isso contribuiu para a formação de um vocabulário vasto.

Você também possui grande presença das artes, música e dança, na sua trajetória, certo? Como essa presença te influenciou?

Tenho uma base multicultural forte, assim minhas influências são músicas, danças, pintores, comidas, feitos à mão e escritores. Dancei tango e danças latinas, como cumbia e salsa, por décadas. Iniciei com 13 anos e fiz parte de um grupo de dança, dos mestres Levy e Cecília, até os vinte e poucos. Nestes espaços, convivi com a cultura argentina e uruguaia. Em paralelo, meus pais se empenharam para pagar meu curso de inglês. O que foi meu abre alas na vida: dominar idiomas estrangeiros. Primeiro o inglês, depois o espanhol.

Como suas experiências pessoais, como o intercâmbio na Nova Zelândia e seu trabalho como secretária executiva, te influenciaram?

Antes do intercâmbio, eu fiz magistério e atuei como professora durante 7 anos (séries iniciais – em ensino bilíngue e inglês para adultos e adolescentes). Ao voltar da Nova Zelândia, vim com outras ideias e segui para o ambiente corporativo. Cursei Secretariado Executivo Trilíngue e atuo na área desde então.

Como Secretária Executiva, trabalhei com expatriados e vivenciei a cultura de diversos povos. Estudei sobre inteligência cultural e suas aplicabilidades, inclusive ganhando um prêmio acadêmico. Há mais de 10 anos, participo de eventos nacionais e internacionais, como speaker e ouvinte. Esse olhar cultural, de perspectiva de viver, mudou o legado que vou deixar e sarou as feridas ancestrais de escassez que recebi.

Sabemos que você é uma sobrevivente da grande enchente que atingiu o Rio Grande do Sul entre abril e maio do ano passado. Como esse período influenciou ou modificou sua obra?

Enquanto o livro Papel Amassado estava em edição, junto a Editora Labrador, eu vivia um dos períodos mais desafiadores da minha estrada: perdi tudo com a enchente. Minha casa ficou submersa durante 3 semanas. Após, foi necessário descartar tudo e limpar. Por fim, fazer uma pequena reforma e voltar para casa, sem nada dentro. Foi necessário reconstruir tudo. Em decorrência disso, alguns elementos do livro foram modificados para dar mais sentido ao momento que eu estava passando: foram incluídos elementos da cultura Rio Grande do Sul nas ilustrações onde antes tinham elementos da cultura da América Latina. Em uma ilustração em que há quadros na parede, colocamos a representação das cachorrinhas da minha família Baixinha, que está viva por que ficou 3 semanas no forro da casa do meu pai, sem água e sem comida até ser resgatada; e Dolly, que não sobreviveu. Também uma menção honrosa no final do livro aos afetados por essa catástrofe.

O que vem por aí? Pode nos dar um pequeno spoiler sobre seu próximo lançamento?

Vem por aí, em abril de 2025, o livro Bergamota, que narra o que eu vivi na pele durante a enchente e que deixou um amassado no meu papel com traços profundos. Decidi por reconhecer meu novo começo e escolhi ver o ocorrido com olhos de coragem. Em uma guiança de presença, valorizo minha cultura, e mostro aos leitores que basta se permitir e escutar o seu próprio coração.

Deixe um comentário

Sugeridos
LançamentosLiteratura

Escritor Douglas Robberts lança “Meninos avessos, duendes travessos”

Nova obra de Douglas Robberts apresenta o encontro inesperado entre dois meninos...

LançamentosLiteratura

Christian Araújo leva personagens trans a uma Belém distópica em Não Sou um Diário

Escritor e cineasta paraense mistura poesia, ficção científica e cultura pop em...

LançamentosLiteratura

Romance premiado sobre violência contra a mulher percorre Sesc RJ

Selecionado pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, “Açougueira”, de Marina Monteiro,...

AgendaLiteratura

Flautista Ivan Melillo lança o livro “Crônicas Musicais”

Na obra, ele expõe partituras das suas próprias músicas, compostas diariamente em...

FestivaisLançamentosLiteratura

“Guia de conduta para mulheres bravas” na Flip 2026

A pesquisadora, artista visual e escritora Marina Jerusalinsky é semifinalista do Prêmio...

AgendaFestivaisLiteratura

Flip 2026: cearense Maurício Mendes com Manual do Mediador

Nova edição de “O homem não foi feito para ser feliz” chega...

AgendaLiteratura

Danilo Heitor leva ficção científica e memória política na Flip

O que acontece quando os crimes de uma ditadura não ficam no...

LançamentosLiteratura

O manual do turista que ninguém aguenta 

Reclamadores, invasores de espaço e entrosões ajudam a explicar por que a...

LançamentosLiteratura

Thainá Fernandez lança romance  “Beijada pela maré”

Com patrocínio do Governo do Estado do Rio de Janeiro, novo romance...

LançamentosLiteraturaTecnologia

Lançamento da Flip 2026, “Biotecnosfera”

Romance de Lucas Araújo mistura ficção especulativa, crise climática e debates sobre...