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FLIP 2015 – Entrevista com Caco Ishak, poeta, tradutor e agora cowboy-romancista

Por Tássia Arouche e Bruno Azevêdo

O mundo literário, como tantos outros, tem mil camadas. Os escritores, como cantores, atores e outras peças no mundo da arte, se dividem não só pela qualidade da obra, mas pela posição que ocupam no meio. Um evento como a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deixa isso um bocado evidente, a exemplo de tantos outros festivais literários, colocando no mesmo lugar nomes reputados e chancelados por grandes selos e escritores em ascensão, editoras independentes e de grande porte.

É muito comum, ao circular pelas mesas da Off Flip, encontrar escritores presenteando seus primeiros livros a outros escritores, num escambo não só literário, mas de re-conhecimento. Em parte é assim que um nome ainda não editado por um selo grande ou fora dos cadernos culturais consegue furar o bloqueio. Parte dessa galera protagoniza os vários eventos paralelos da Flip, com recitais, lançamentos e mesas menos disputadas, mas nem por isso menos interessantes.

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No meio da vasta programação acontecendo durante a Flip, o escritor goiano/paraense-morando-atualmente-em-São-Paulo Caco Ishak lançou o seu primeiro romance e terceiro livro Eu, Cowboy, na última quinta-feira (02), em um desses eventos da Off Flip. Caco, que já havia publicado os livros de poesia Dos versos fandangos ou a má reputação de um estulto em polvorosa e Não precisa dizer eu também, atua ainda como tradutor. Ele conversou um pouco com a gente sobre o seu trabalho na escrita.

Caco, fala um pouco pra gente sobre o Eu, Cowboy. A gente está com o livro e promete uma resenha pra breve, mas ainda não deu pra ler…

Resumindo em poucas palavras: o elo perdido entre o século XX e o século XXI. Em consequência, talvez (não há nada mais relativo do que uma certeza), tenta reanalisar o século XX sob a luz do XXI, o protagonista é um formador de opinião facebookiano, cheio das frases de efeito, e, dada a exponencialidade da evolução, não consegue nada além de um novo fracasso. É um livro sobre o fracasso. E acredito que o autor tenha fracassado logo na primeira resposta desta entrevista. Talvez, vocês consigam explicar o livro melhor do que eu. Espero. Seguimos adiante.

Você já tem dois livros de poesia lançados e agora está publicando um romance. Essa mudança de gênero literário teve algum motivo? O que você precisou dizer dessa vez que não cabia no poema?

O romance, na verdade, foi anterior ao segundo livro de poesia. Eu não tinha nada a dizer e isso é muito difícil na poesia, então parti pro romance. A poesia sempre tem algo a dizer. O romance é uma DR por natureza. Uma DR entre o autor e suas próprias catacumbas.

E o que vem aí pela frente? Você continua escrevendo poemas ou seu próximo livro será um novo romance?

A poesia é uma vadia. Me faz de gato e sapato. Entra e sai da minha vida como quem sofre de prisão de ventre, seguida de uma diarreia fulminante. Não tenho o menor controle sobre meu esfíncter poético. Passo meses, anos sem escrever um verso e, de repente, do nada, em duas semanas, escrevo sete poemas. A prosa, por outro lado, sempre foi mais “fácil”. Consigo abrir o computador e escrever qualquer coisa de qualidade duvidosa que, após um tempo, pode acabar sendo retrabalhado. Com a poesia, isso não acontece. Sou mulher de malandro, ok, mas faço meu doce. Quando ela, enfim, resolve voltar pra casa, ou vira de quatro duma vez e pisca em morse pro mundo eu deixo quieto, não dou bola, fico sentado, lendo os obituários no jornal, enquanto ela passa rebolando na minha frente, aquele rastro de perfume barato, pra ver se consegue chamar minha atenção. Então, sabe Deus quando deve sair o próximo de poesia. O mesmo pode ser dito quanto ao próximo romance, já sendo escrito. Mas, ao contrário do Eu, Cowboy, que saiu em 27 dias, esse, pelo visto, deve levar uns dois anos.

E o seu trabalho como tradutor? Você se vê atuando de forma muito diversa como tradutor, romancista e poeta? Ou, no fundo, são apenas diferentes facetas de alguém que está criando um texto literário?

Minha recente (dois anos) e ainda precária (mil anos a amadurecer até me considerar de fato um tradutor) carreira (haha, ok: trabalho) como tradutor foi fundamental no processo de revisão do Eu, Cowboy. Ruminar um mesmo conceito, a mesma frase, três, quatro, cinco vezes, até encontrar a tradução que melhor reinterprete o que o autor quis dizer. É um baita exercício de narrativa e vem me ajudando muito a crescer como escritor, sim.

Mas e aí? Paraty é uma festa?

O Tinder e o Floratil estão aí de modo a garantir isso.

 

#flip2015

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