em ,

Flip: Debate entre cronistas aborda ficções da realidade e realidades de ficção

Devido à desistência do escritor italiano Antonio Tabucchi de participar da Flip, por questões políticas – como forma de protestar contra a decisão do Governo brasileiro de manter Cesare Battisti no Brasil e não extraditá-lo para Itália, onde está sendo condenado de terrorismo -, outro escritor italiano, Contardo Calligaris, radicado no Brasil, foi convidado para partipar de mesa de debate em seu lugar.

Calligaris, que também é psicoterapeuta, juntou-se a Ignácio de Loyola Brandão, famoso cronista brasileiro, para falar sobre crônicas de ficção, ficções de crônica (conforme o nome da mesa). Ambos escrevem crônicas para os maiores jornais do Brasil, o italiano é colunista do jornal Folha de S. Paulo e Brandão escreve para O Estado de S. Paulo, onde fazem textos que refletem olhares sobre a realidade. “Como psicoterapeuta, devo dizer que as histórias reais que são contadas no consultório não passam de pequenas ficções”, disse Calligaris. Neste sentido, Brandão também afirmou que suas crônicas são visões sobre o mundo e que em São Paulo, lançar um olhar sobre a realidade é natural, pois lá “os acontecimentos agarram seus tornozelos e gritam: usa-me, usa-me, usa-me”, disse ele. O cronista do Estadão também disse que escrever crônicas para periódicos pode ser considerado uma literatura sob pressão, cuja inspiração passa a ser o prazo.

A descontração da plateia foi notória, fato que pode ser atribuído à desenvoltura dos dois escritores, que estavam completamente à vontade com a conversa. Brandão falou que escreve sobre pequenas coisas da vida, que faz homenagens às pessoas em suas crônicas e que Calligaris seria um cronista da alma, no sentido de abordar temas mais profundos. De fato, o italiano confessou ter sempre viés terapêutico em seus textos, mas também afirmou não escrever crônicas negativas. Lembrou-se de poucas que já escreveu em sua vida e uma delas foi sobre o filme “Dogville”, de Lars Von Trier, que o incomodou muito. Ele explicou que seu objetivo é “comunicar parte da minha experiência ao ver um filme ou ler um livro” e não criticar, no sentido pejorativo da palavra, o que, segundo ele, não contribui para a experiência própria de cada um ao ler o livro ou ver o filme.

Brandão afirmou que faz ficção “para, de certa forma, resolver minhas coisas, para ser quem eu gostaria de ser eu nunca fui, para fazer algo que nunca fiz”. Já Calligaris entende ficção como seu estado de espírito: “Acordo de manhã e penso em como tornar o dia uma aventura”, disse ele, que utiliza-se da ficção como um meio de tornar a vida mais divertida. Brandão revelou que às vezes escreve com ódio e citou uma crônica sobre o filme “Meia Noite em Paris”, do Woody Allen. “O filho da mãe fez exatamente o que eu sempre quis fazer”, declarou o autor, tirando gargalhadas da plateia.

Além de rir muito, alguns que estavam ali presentes na mesa de debate – que ocorreu na sexta-feira, 8 de julho na Flip – choraram. Brandão contou a história das bolinhas de gude que ele costumava roubar da caixa de seu avô, até que um dia o velho descobriu a caixa vazia. Então, neste dia, quando Brandão chegou à casa do avô se deparou com uma tristeza enorme em seus olhos. Perguntou à sua avó o que havia acontecido e ela respondeu: “Seu avô perdeu a parte mais feliz de sua vida”, que eram as bolinhas de gude que ele havia perdido. “Por quê?”, perguntou ele, “o que eram aquelas bolinhas, afinal?”. Sua avó lhe contou que, certa vez, o avô havia achado uma fotografia de um carrossel, algo que não existia na época e nem se sabia o nome. Ele, marceneiro, resolveu fazer um igual e quando o carrossel, bastante rudimentar, ficou pronto, faltavam os olhos dos cavalos. Então, ele resolveu fazê-los com as bolinhas de gude. Sua maior alegria era ver as crianças girarem naquele carrossel. Mas, um dia o carrossel pegou fogo e foi completamente destruído. O avô, ao ficar sabendo do ocorrido, correu ao local do acidente e passou a noite toda recolhendo as bolinhas de gude que haviam caído no chão. Elas eram a única coisa que restara daquele tempo feliz, para seu avô.

Segundo Brandão, seu próximo livro será, justamente, um pedido de desculpas ao avô. “Estou tentando, por meio deste livro, me reconciliar com ele”, disse. Calligaris também anunciou sua próxima obra literária que se chamará “O Homem nos Escombros”. Segundo ele, o livro será um relato de uma infância em uma cidade que foi bombardeada e de “como se constrói uma vida em cima dos escombros da guerra”, revelou. Calligaris tem uma história de vida semelhante, uma vez que passou sua infância na Itália e se lembra de seus pais racionalizando comidae vivendo sempre prontos para, de repente, se algo acontecer, fugir.

A fronteira entre realidade e ficção é bastante tênue, pois parece inevitável interagirmos com as histórias de tal forma a nos tornarmos parte dela. São realidades de ficção e ficções da realidade.

 

Participe com sua opinião!