Literatura

A Parede no Escuro: O contraste das gerações

No subjetivo e complexo A parede no escuro, do gaúcho Altair Martins, o leitor é bombardeado com uma explosão de narradores distintos. Dos diversos personagens, mais de dez dividem a narração em primeira pessoa. E essa é só a principal das outras tantas originalidades propostas pelo autor.

Na trama, muita coisa acontece ao mesmo tempo, e os inúmeros acontecimentos e personagens ficam girando em torno de um único ponto principal: a difícil convivência entre pais e filhos. Emanuel e Maria do Céu são o centro de toda a história. Ele, obsessivo e exato, é professor de matemática, sempre procurando calcular uma lógica para sua vida organizada; querendo compulsivamente manter cada coisa em seu lugar. Mas todas as somas terminam negativas naquela manhã chuvosa, quando por acidente, atropela e mata um padeiro, fugindo em seguida sem prestar socorro.

Adorno, o padeiro morto, era o pai de Maria. Ambos rancorosos e orgulhosos não se viam nem se falavam desde uma recente briga que findara com ela deixando a casa dos pais. Mas a morte sempre encontra uma maneira de mudar as perspectivas e sentimentos dos que ainda sobram vivos.

Algumas casas adiante, o pai de Emanuel se desgasta numa pneumonia não tratada. E nesse caso específico, nem mesmo a iminência da morte é capaz de sarar a terrível relação entre o professor e seu pai; seu pai violento e autoritário, seu pai capaz de lhe espancar com arame farpado por um motivo banal, seu pai que cultiva aquele ódio incompreensível. Seu pai.

Um emaranhado de pontas que se cruzam e se soltam ao longo de um livro simplesmente incrível e sentimental. As incompreensões, os relacionamentos turbulentos e a realidade da degradação familiar são postos a luz nas páginas sensíveis de Altair Martins. A prosa poética e a beleza das metáforas; eis a mágica, os ingredientes para um romance fabuloso.

Entretanto, como em muitos dos ótimos romances, um final indigno.

[xrr rating=3/5]

ALTAIR MARTINS é mestre em literatura brasileira e leciona em escolas de porto alegre. É o autor das antologias de contos Como se moesse ferro e Se chovesse pássaros.

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