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Poética do afeto, de João Anzanello Carrascoza

Um pedaço de chão para se colocar os pés e deste tu ser a pessoa que és. Um pedaço de céu para repensar na pessoa em que tu serás quando os seus esteios não mais o estiverem aqui. Um pedaço de pegada para que largues sozinha a corrida da vida quando a morte se interferir e entrar na viagem dos seus afetos. Destes pedaços de estórias, destes fragmentos de memórias de um pai a sua filha é de que é feito a lírica narração de Caderno de um ausente do escritor João Anzanello Carrascoza, pela Cosac Naify.
Um Pai lavrador-professor que numa teologia do afeto coloca à filha – todos nós que se ausentarão um dia, é melhor a filha refazer seus nos internos para que se fortaleça quando não ouvir mais a voz de seu pai e tua mãe. Num discurso totalmente interiorizado mas voltado para uma escuta da filha, o narrador trabalha a construção da fala internalizada; aquela que é narrado para o ponto de vista do outro. Mas é preciso além de formar, contar uma estória, elas nos constrói em seus aspectos arquetípicos. E aí entra a questão da terra, da ancestralidade de um clã que veio desenvolvendo um mesmo trabalho alinhando uma tapeçaria de continuidade.
A mãe que devido ao parto se enfraqueceu, é pintada pelo pai com elo mais forte da estrutura da casa. A linguagem do escritor é alinhavada por sugestões de imagens poéticas e desvãos de carinho por que toda palavra conserva sua linhagem, toda emoção transmitida não se encerra na audição, aquilo flutua numa sublimação dos cânticos e através de uma internalização que permanecerá como religião.

  •  Caderno de um Ausente
  • De João Anzanello Carrascoza
  • Editora Cosac Naify
  • Formato: 120 x 170 mm;
  • Páginas: 128;

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Publicação Fernando Andrade